O investigador prestes a se aposentar que recebe o último e mais difícil caso, envolto em elementos do próprio passado. Um assassino que tem uma ética particular e, por sair fora das regras que criou ao ajudar uma garota, acaba sendo perseguido. Histórias vistas em vários filmes policiais e de suspense, agora reunidas em “O Contador”, que estreia hoje nos cinemas.

Mas não se trata aqui de uma repetição. O filme é mais complexo, traçando caminho próprio ao inverter algumas peças e encaixar boa parte delas somente no final, com um acúmulo de informações que pode deixar o espectador atordoado. Não por conter reviravoltas mirabolantes, e sim por revelar novas e interessantes camadas.

A cena inicial mostra um garoto autista completando a última peça de um quebra-cabeça, recurso que não é exibido por acaso, sintetizando a própria narrativa. Como no jogo, o que está “espalhado na mesa” dá pistas da imagem a ser formada, mas sempre há detalhes que, no desfecho, nos surpreendem de alguma forma. 

Ambiguidade
Enigmático, de poucas palavras e traumatizado por acontecimentos do passado relacionados à família, o personagem de Ben Affleck (o garoto do começo, que se transforma num contador que trabalha para criminosos) se esforça para controlar o próprio distúrbio.
Logo sabemos que está sendo investigado e procurado por uma agente que também possui um passado nebuloso. 

À medida que a trama avança, o filme parece se fechar em determinados aspectos. Um deles diz respeito à ambiguidade dos personagens. Todos têm uma dupla face, na linha tênue entre o bem e o mal, sempre cabendo uma dupla interpretação. 

A ligação de Christian (Affleck) com o pai, um oficial do Exército de estranhos métodos, também traz à tona a questão política, sobre “monstros” criados pelos americanos em situações extremas, como visto na franquia “Bourne”, além de justificar cada vez mais a espionagem tecnológica pelos mais diversos meios, quase banalizando-a.

Apesar de Affleck sempre se perder em personagens que exigem uma complexidade interior (vide o último Batman), sucumbindo diante do talento e versatilidade de Anna Kendrick, na pele da mocinha, o desempenho dele não compromete a narrativa, que repentinamente parece abrir uma segunda parte ao apresentar novas nuances de todos os envolvidos.

Por falar em herói de quadrinhos, o último terço de “O Contador” traz características muito fortes desses enredos, como o defensor de causas nobres, o “chefe” de polícia que tem o papel de proteger esse “herói” e uma revelação final que deixa claro que ele não está sozinho nessas ações e que abre a possibilidade até para uma continuação.