A integração ao universo expandido da Marvel no cinema tornou possível ao Homem-Aranha ser exatamente o que é – um simples adolescente que não está pronto ainda para as obrigações de um super-herói – sem fazer do aracnídeo um personagem menor ou menos decisivo em comparação aos outros Vingadores.

O fato de “Homem-Aranha – Longe de Casa” – o segundo longa solo vinculado à cronologia iniciada em “Homem de Ferro”, em 2008 – se iniciar no momento seguinte ao encerramento de “Vingadores –Ultimato” já incorpora vários elementos importantes ao roteiro do filme, cartaz a partir de hoje nos cinemas brasileiros.

Não é preciso ressaltar o papel do Homem de Ferro na liderança dos Vingadores e na memória afetiva dos fãs para compreender o peso da incumbência deixada para Peter Parker, ao entregar-lhe o comando de poderosos armamentos das Indústrias Stark, após se sacraficar e ser morto por Thanos na cena final de “Ultimato”.

Essa atmosfera de tristeza e despedida (ampliada pela perda de Viúva Negra e pela aposentadoria de Steve Rogers como Capitão América) do filme anterior vem à tona na primeira parte de “Longe de Casa”, quando sabemos que metade da população foi “blimpada” – após desaparecer, volta com cinco anos a menos em relação aos que permaneceram.

Com esse background, os roteiristas ficaram mais à vontade para mostrar Parker tentando esquecer um pouco o que aconteceu e voltar a ser um adolescente normal, por mais que as circunstâncias lhe obriguem o contrário. Ele quer aproveitar uma viagem à Europa com a turma da escola para finalmente se declarar a MJ.

A história se concentra neste dilema (já presente em “De Volta ao Lar”), entre a difícil missão, para um garoto, em concretizar uma paixão e a necessidade de vestir o uniforme várias vezes, sob a supervisão implacável de Nick Fury. O humor toma conta, fazendo do personagem uma espécie de looser das comédias americanas.

Quando tem a chance de se aproximar de MJ, o plano cai por terra ao surgir um inimigo ou após ser convocado por Fury, numa chave mais cômica que o normal. Assim, sentimentos contraditórios servem de obstáculo um ao outro e, de tão pressionado, o herói parece a caminho da derrota tanto no aspecto macro quanto micro.

Dirigido por Jon Watts, que também assinou “De Volta para Casa”, o filme trafega bem entre este dois mundos, não devendo decepcionar os fãs de super-heróis pelas diversas ligações externas criadas, envolvendo personagens de “Capitã Marvel” e de “Homem de Ferro”, representado por Happy, motorista e guarda-costas de Stark. 

Interpretado por Jon Favreau (diretor dos dois primeiros filmes com o Homem de Ferro e produtor da franquia “Vingadores”), ator especializado em comédia, ele tem participação grande na história, como o elo entre Parker, o público e o herói falecido, lembrando suas qualidades – e também alguns defeitos de caráter.

De todo o universo cinematográfico Marvel, “Longe de Casa” é o que menos ação entrega, podendo ser definido como uma comédia de aventura, sub-gênero comum na década de 1980. O filme se permite até algumas referências à trilogia protagonizada por Tobey Maguire, quando entra em cena o J.J. Jameson, dono do “Clarim Diário”, vivido por J. K. Simmons. Importante: atenção para duas cenas pós-créditos, uma delas já antecipando o próximo filme do aracnídeo.