Vamos ouvir falar muito de “Arábia”, filme dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans que estreia hoje nos cinemas. Como no relato escrito pelo protagonista num caderno espiral, a história pode soar triste e simples, sobre o que “ganhei e perdi”, mas o que está sendo dito ali reverberará bem mais longe.
 
Não faltarão leituras sociais e políticas, embora o filme não tenha nada de engajado. Daqui a alguns anos, será um forte documento de época, a respeito de expectativas e limitações de pessoas de classes mais humildes. O que se vê na tela é o povão – os ricos, quando surgem, aparecem num plano geral.
 
Dumans e Uchoa parecem retomar uma linha narrativa comum ao cinema das décadas de 70 e 80, em que operários, caminhoneiros e migrantes foram personagens de filmes como “Iracema – Uma Transa Amazônica”, “O Homem que Virou Suco”, “A Hora da Estrela” e “O Baiano Fantasma”.
 
Talvez o “parente” mais próximo do protagonista Cristiano (Aristides de Sousa, um achado) seja Macabéa, de “A Hora da Estrela”, também sem família e grandes aspirações de vida. É uma questão de sobreviver, mas longe de significar apatia ou desprezo. Na estrada, nas relações que constrói e no trabalho, a vida pulsa no personagem.
 
Filme ganhou o principal prêmio no Festival de Brasília de 2017, além de melhor ator, montagem e trilha sonora
 
Há muitas perdas em suas andanças pelo interior mineiro, ao mesmo tempo em que cada mínimo contato se torna um sinal de esperança e exuberância, com os diálogos e a fotografia sendo muito precisos na maneira de nos conduzir à essa atmosfera, acentuada pela trilha sonora. 
 
Num de seus encontros, o operário encontra Ana, nome que representa a ideia de dádiva. Embora a relação entre eles não seja muito diferente de outras, o filme consegue captar exatamente aquele instante da memória em que identificamos um certo regozijo.