A nova Diretora de Arte e Programação Cultural do Instituto Inhotim, Eungie Joo, iniciou seus primeiros contatos com o universo da arte nos anos 90. E em um lugar que, provavelmente, a fez sentir em casa: o ateliê do irmão, o artista plástico Michael Joo, em Nova York. Ao contrário do que alguns veículos de comunicação disseram quando ela foi nomeada para o cargo, Eungie é americana, e não coreana. Na New York University estudou literatura e política, além de se dedicar à pesquisa sobre a diáspora africana. Depois disso, concluiu o doutorado em Ethnic Studies (Estudos Étnicos, em tradução literal) na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Foi quando começou seu caminho por algumas importantes instituições voltadas à arte contemporânea. 

Antes de chegar à Brumadinho, Eungie esteve à frente do New Museum de Nova York, onde foi, desde 2007, diretora Keith Haring e curadora de Educação e Programas Públicos. “Para mim, arte contemporânea é uma parte original da cultura contemporânea, tanto experiencial quanto intelectual, e dessa forma ela é uma potência para todas as pessoas que pensam” disse Eungie Joo, ao chegar por aqui em julho do ano passado para “fechar” os detalhes de sua nova ocupação. E concluiu: “Eu acredito que mesmo os trabalhos mais espetaculares ou teatrais em Inhotim, como “Beam Drop”, do Chris Burden, ou “Ttéia 1”, de Lygia Pape, oferecem importantes possibilidades para um tipo de introspecção que a natureza também inspira. O espetacular não é destituído de oportunidade e informação”, conclui Joo. 
 
O Hoje em Dia esteve com ela há duas semanas. Instalada em uma bela sala na parte mais nobre da rua Antônio de Albuquerque, na Savassi, Eungie logo convidou a reportagem para tomar um café e conversar longe dali. A entrevista aconteceu quase em frente ao escritório do Instituto onde funciona a assessoria de imprensa da instituição e curadores e outros colaboradores se reúnem para traçar estratégias de comunicação ou projetos de arte ou educação. “Não quero falar sobre os meus pais”, respondeu rápido a entrevistada quando questionada se eles eram da Coreia do Norte ou do Sul. 

Eugie Joo - Marcelo Prates - Hoje em Dia
Eungie Joo, que passou por várias instituições culturais, agora aplica sua experiência em Inhotim (Foto: Marcelo Prates/Hoje em Dia)
 
De fato, deve soar-lhe algo provinciano essa curiosidade, ora da mídia ora do público, sobre de onde ela realmente vem. Se fosse uma espécie de Elza Soares desse novo milênio, responderia apenas “venho do planeta arte, brother!”. Resolvido isto, o mais importante agora é saber para onde ela vai. E tudo indica que a contratação de Eungie tem a ver com um investimento genuíno de Inhotim em arte-educação. Afinal, todo o percurso da nova diretora aponta para a conjunção destes dois ingredientes. “Eu sempre trabalhei com estudantes. Isso nunca foi algo distante para mim. O Inhotim Escola (lançado no último final de semana na Praça da Liberdade) é um projeto satélite, e se constitui em apenas mais uma das políticas da instituição nesta área.”, afirma Eungie. O que a diretora se refere é a plataforma de formação em arte, meio ambiente, cidadania e educação apresentada com palestras de Tunga (amigo do fundador Bernardo Paz e citado como um dos idealizadores do conceito Inhotim), Ernesto Neto e Arto Lindsay, entre ouros, nos últimos dias 22 e 23 deste mês. O Inhotim Escola funcionará nos dois antigos prédios da Secretaria de Estado da Cultura: Solar Narbona e o Palacete Dantas.
 
Arte Contemporânea

Como a senhora vê a arte contemporânea brasileira? “A arte contemporânea brasileira vem de uma longa história de afirmação. Se você pegar Oscar Niemeyer, por exemplo, verá que ele também contribuiu de forma efetiva para a apresentação do Brasil e de seus artistas. O que temos hoje é um número maior de artistas e isso cria um leque amplo de oportunidades e experimentações. Existe também um diálogo com o resto do mundo que é mais sofisticado. A estrutura do país nesta área começou a se internacionalizar. Temos aqui hoje uma maior troca de informações, mais galerias, mais museus, mais filmes, uma maior circulação cultural”, explica Eungie. “No ano passado, Inhotim mandou 10 crianças de Brumadinho para Londres. Eles participaram de um laboratório em arte. Essas ações fazem parte do nosso investimento em educação”, conclui. 
 
Além de coordenar diversas outras ações do Instituto Inhotim, e acompanhar a construção dos novos pavilhões (os próximos serão da artista Cláudia Andujar, suíça naturalizada brasileira, e do dinamarquês Olafur Eliasson (veja box), Eungie Joo continuará editando ou contribuindo para algumas publicações relevantes da área como a revista Rethinking Contemporary Art and Multicultural Education ou a Art Spaces Directory, ambas produzidas nos Estados Unidos.
 
No dia em que foi nomeada Diretora de arte e programação cultural de Inhotim, Eungie disse: “ É uma honra fazer parte da equipe visionária de Inhotim, cuja inigualável dedicação às comissões permanentes e pavilhões de artistas criou um notável museu com convincentes programas comunitários. Estou ansiosa para participar da continuação do crescimento deste projeto único”. 
 
Eungie ocupou o lugar que foi do alemão Jochen Volz logo após este assumir, no ano passado, o cargo de curador-chefe da Serpentine Gallery, em Londres. Volz continua como curador, ao lado de Rodrigo Moura, Alan Schwartzman e Júlia Rebouças. Júlia deve coordenar as ações do Inhotim Escola conforme as instruções e estratégias promovidas pelo grupo ou pela própria diretora de arte.
 
Um dos grandes feitos recentes de Eungie, que traz a experiência não só em arte educação mas também em soluções inovadoras focadas na iniciativa das comunidades, foi a Trienal do New Museum, “The Ungovernables”. Uma exposição que a marcou ao apresentar a produção – descrita pelos que viram de “emocionante” – de artistas de diferentes partes do mundo, incluindo a América do Sul, Oriente Médio, África e, claro, a Ásia para um público norte-americano.
 
De acordo com Allan Schwartzman, “a experiência organizacional de Eungie e sua perspectiva singular curatorial faz dela uma colaboradora ideal para nossa distinta forma de colecionar e apresentar a arte”. Talvez Schwartzman esteja se referindo também ao Museum as a Hub, a iniciativa artística e experimental liderada por Joo no New Museum e que explorava a prática artística, curatorial e institucional servindo como um importante recurso para o público aprender sobre a arte contemporânea em todo o mundo. Como parte desta iniciativa, ela encomendou Nightschool de Anton Vidokle, Post Living Anti-Action Theater por My Barbarian, e Project for a Revolution em Nova York ou How to Arrest a Hurricane por Ayreen Anastas e Rene Gabri, além de Programas de Pesquisa e Extensão. 
 
Quanto tempo a senhora espera ficar no Brasil? “Não vejo ser possível ficar menos do que cinco anos. Temos muita coisa para fazer pela frente”, revela Eungie Joo, a quem só nos resta desejar pavilhões de sucesso! 

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