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O artista, educador e mobilizador social Cascão posou juntou às cores e sabores do Mercado Central

Em 19 de setembro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu a literatura de cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Unânime, a decisão jogou luz sobre a importância de uma das vertentes literárias mais antigas e democráticas do Brasil. Fruto da conexão entre as narrativas orais e a poesia, o cordel foi trazido pelos colonizadores portugueses e se enraizou no Nordeste como expressão do âmago sertanejo, espalhando-se depois por todo o país. Prova disso é o projeto Cordéis do Cafundó, que mantém viva e ativa a vertente em Minas Gerais. Para saber mais sobre a importância da vertente literária, Hoje em Dia conversou com seu idealizador, Rodolfo Cascão, artista, educador e mobilizador social que milita pela cultura popular há mais de 30 anos. 

O que achou da decisão do Iphan? Porque o reconhecimento foi tardio? A decisão é ótima. Hoje, há cerca de três a quatro mil cordelistas ativos e pelo menos 30 mil livros publicados até então no Brasil, único país da América Latina que mantém viva a produção de cordel desde a Colônia. Então, é uma literatura de muita força, que tem a ver exatamente com o conceito de patrimônio imaterial, que são os saberes enraizados no cotidiano das comunidades. A literatura de cordel é uma cultura que forma a sociedade brasileira, uma expressão artística popular, democrática e horizontal. Como folheto, especialmente no século passado, foi um jornal do sertão, um exemplo da literatura de circunstância. Foi a obra de arte que chegou aos grotões, traduzida por poetas populares. É também uma expressão que enfrentou muito preconceito. O processo do cordel foi apresentado ao Iphan há dez anos e só foi admitido depois de muita pressão. Jessé de Souza (sociólogo e escritor) fala que temos uma elite do atraso, uma elite envergonhada, e isso vem desde o início da República, quando preferiam trazer companhias francesas para o Brasil ao dar oportunidades a cantadores e trupes circenses brasileiras. É um preconceito de classe, que se fecha numa redoma elitista, que acha que existe uma cultura erudita que é a legítima, a verdadeira, a correta. Então, tudo que não faz parte deste universo da indústria cultural é marginal. E a marginalidade do cordel é histórica, já que ele vem do pobre, do preto, do indígena, da mulher periférica.

O que torna o cordel uma expressão artística tão democrática e plural? O cordel, na sua essência, é cultura popular. É poesia, é cheiro de povo. É o povo refletindo sobre a vida, com expressão poética. O cordelista é um pesquisador da realidade e a poesia de circunstância é uma poesia de consciência, diria até de politização. O que torna o cordel democrático, popular e horizontal são alguns elementos que compõem a diferença entre um livro de literatura e um folheto de cordel. Enquanto um custa R$ 50, o outro custa centavos. É um acesso econômico ao pobre. Outro ponto é que ele é vendido em espaços não convencionais. Talvez um cara de periferia não tenha coragem de entrar numa livraria porque existe preconceito de classe. Mas o cordel ele compra no jornaleiro, na rodoviária, na feira, na praça. E são livretos curtos, o que é outro estímulo. Sem contar que são apetitosos, os títulos são convidativos e qualquer sujeito pode cordelizar. Por isso, há esse arsenal incontável de cordéis e possibilidades. Sou um curioso, enxerido, que do ponto de vista até da leitura de cordéis, nesse manancial de criações, se li 5% dos que existem é muito. Faço o meu filtro. Tem muito cordel que eu particularmente considero ruim, preconceituoso e que não indicaria. A Marilena Chauí (filósofa e escritora) fala que a cultura popular é uma amálgama que tem elementos transgressores junto a outros completamente arcaicos e conservadores. Então, no cordel a gente acha de tudo. O que me encanta é a genialidade das poesias, que vêm num ímpeto de vivência popular, além do humor e do vínculo com a musicalidade. O cordel também cumpria um papel educativo, mas não era utilizado pelo professor do sertão como uma cartilha. Pelo contrário, as crianças, jovens e adultos se alfabetizavam para poder ler aquelas maravilhas. E o cordelista antenado era um repórter, numa época em que não havia televisão e rádio. O cordel forma, informa e cria consciência dentro do saber popular.

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E o que caracteriza tecnicamente um cordel? Do ponto de vista técnico, os cordelistas apontam três elementos fundamentais: a oração, a rima e a métrica. Oração significa que tem que ter começo, meio e fim, já que o cordel conta uma história. Também deve ser rimado, e aí há várias matrizes e inúmeras combinações de rimas. Por fim, a métrica, que são as sílabas poéticas, que não necessariamente devem ser casadas com as sílabas gramaticais. Tem que ter cadência, ritmo e melodia, e o cordelista sempre tenta trazer isso com perfeição. Quando se ultrapassa para menos ou mais, é o que se chama de “pé quebrado”, porque os versos são batizados de pés. Quando você não respeita as sílabas poéticas, derrapa e o pé se quebra.

Como é o diálogo do cordel para com outras linguagens artísticas? Embora o cordel tenha suas marcas próprias, é tudo interdependente. O cordel influenciou artistas e escritores que se voltaram para a cultura popular, que tiveram um olhar carinhoso e uma aposta na dimensão social desse Brasil esquecido, o Brasil da miséria. Entre os escritores, temos exemplos como Ariano Suassuna, Jorge Amado, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto. O próprio Drummond afirmou que o cordel é uma “poesia de confraternização social que alcança grande área de sensibilidade, uma das manifestações mais puras do espírito inventivo”. Na área da música, Luiz Gonzaga é clássico, mas temos também Edu Lobo, Geraldo Vandré, Nando Cordel, que era de família de cordelistas. No cinema, Glauber Rocha trouxe uma obra voltada para esse Brasil. Nas gravuras, temos vários exemplos, como J. Borges, renomado xilogravurista e cordelista.

Como você conheceu o cordel? O que te encantou? De 1977 a 1989, eu morei no Mato Grosso com minha companheira, Fernanda, e lá tivemos nossos filhos. Num trabalho de igreja, me deparei com o cordel. Desconhecia que ali, num povoado micro, existiam vários cordelistas. E me caiu nas mãos “Cante lá que eu canto cá”, de Patativa do Assaré. Aquilo me fascinou e o cordel entrou na minha veia e não saiu mais. Eu já fazia teatro e era um poeta urbano, com minhas questões. Virei cordelista mais de irreverência, não tenho uma produção clássica de cordel impresso em folheto. Mas sempre reagi aos vários momentos, sociais ou da vida privada, com produção cordelista. Comecei a decorar e declamar cordéis e, então, surgiu o espetáculo “Cordéis dos Cafundó”, um desdobramento dessa minha verve declamatória, cordelista e teatral. Impulsionado pela minha família, criamos coletivamente este espetáculo em 2012. 

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Do que trata o espetáculo? E como o projeto Cordéis dos Cafundó se desdobra para a área pedagógica? Conta a história da literatura de cordel. Há declamações e uma série de linguagens bem típicas das feiras nordestinas. É um espetáculo para entretenimento e gozo, que visa disseminar a cultura da literatura de cordel exatamente nessa dimensão de patrimônio cultural do brasileiro, fortalecendo a nossa cultura popular e fazendo frente à pasteurização e à americanização da existência. Então, é um trabalho de resistência e afirmação da nossa identidade. Mais recentemente, desde 2014, o projeto se desdobrou também em frente pedagógica, em escolas. O cordel abre a linha pedagógica de trabalho e o pessoal começa a criar. Escolhem um tema e isso se desdobra num roteiro dramatúrgico transformado em oficinas, resultando num espetáculo próprio, de autoria coletiva, sempre apresentado em praça pública. Sou educador popular, ligado aos movimentos sociais e periféricos, então o cordel virou forma também de lida, de protagonismo, de gerar autonomia em várias áreas. Do ponto de vista pedagógico, a gente abraça Paulo Freire (educador e filósofo) com furor, numa linha de construção horizontal. Passamos elementos e o pessoal passa saberes. Os temas são escolhidos pelas crianças, professores ou artistas, a partir de um desejo local, de uma problemática. A partir daí, entramos com a técnica do cordel, sempre de forma flexível. Neste ano, aprovamos um projeto pela Lei Rouanet, que será desenvolvido em oito cidades mineiras, em 2019. Ainda neste semestre, iniciaremos discussão com secretarias municipais de educação e cultura para eleger escolas ou grupos que venham a ser beneficiados. 

Como você percebe, hoje, a importância da arte enquanto ferramenta de transformação social? A arte não tem que ser necessariamente militante, engajada e provocadora. Acho que a arte tem um papel ansioso de buscar o belo, de comover, de atingir o chip do coração. Mas o campo artístico é um espectro policrômico, um arco-íris em que se cabe tudo. Então, a arte comprometida com a transformação social tem, sim, seu lugar. Essa história de escola sem partido é formulação ideológica da direita, que quer impor só o seu lado. A arte tem a função social de espelhar seu tempo e as lutas dos oprimidos podem ser poetizadas. Nós, do Parangolé Arte e Mobilização, formamos um núcleo de mobilizadores, artistas e educadores que trabalham para colocar a arte a serviço das causas públicas. Nesses 15 anos prestamos serviços artísticos e de educação popular para movimentos sociais e administrações progressistas, sejam elas municipais, estaduais e federais. Portanto, acredito que colaboramos humildemente com a reflexão e a emancipação do nosso povo. Vivemos tempos dramáticos no Brasil e em âmbito planetário, de uma crise civilizatória. Está prevalecendo a perspectiva neoliberal, de ultradireita, do Deus-mercado, que tem como valores o dinheiro, o lucro e a concorrência, além de trazer junto a beligerância e a morte. Mais do que nunca, devemos nos espelhar e conviver com as culturas tradicionais. E aí temos indígenas, quilombolas, ciganos e várias comunidades, no urbano e no rural, que pregam o bom convívio, a solidariedade e o amor. É nisto que eu aposto, e o cordel está aí dentro.