Quem passa apressado pela Savassi perde a chance de um contato com a arte popular brasileira. Que pode ser vista como surrealista ou primitivista, não importa. O importante são as sutilezas nos traçados do artista plástico Aristóteles de Gois Correia, que faz e expõe seus trabalhos no quarteirão fechado da av. Getúlio Vargas, esquina com rua Pernambuco. É lá também que esse artista (e morador) de rua comercializa seus desenhos, que retratam a natureza e a cultura nordestina – por R$ 10 ou pelo “que a pessoa entender que deve dar pelo trabalho”.
 
Aristóteles – que saiu de João Pessoa, na Paraíba, para as ruas do Brasil – diz que desenha e pinta desde a infância e que jamais esteve em um banco de sala de aula de Belas Artes. “Sou autodidata. Comecei com 4 anos de idade e já tem 40 anos que desenho sem parar, constantemente”. 
 
E pouco se importa com rótulos sobre seu trabalho. “O pessoal (críticos) fala que sou surrealista, artista primitivo. Mas eu procuro retratar a cultura do Nordeste: o jeito de vestir, o chapéu, a sandália, o chinelo, as formigas que representam o trabalho incessante. A cultura popular brasileira”.
 
Morador de rua, o artista encontrou um jeito simples, mas criativo, para arranjar “material” que sirva como tela: caixas de cigarros. Ele faz suas “telas” no lado interno (branco) do papel, onde não há a propaganda das marcas. “Eu desenho rostos, caricaturas e animais e insetos, porque gosto da natureza. E pinto na hora para a pessoa ver que o artista brasileiro faz na hora. Aí naturalmente as ideias para os desenhos vão aparecendo. Fico fazendo o que minha a imaginação quer”.
 
 
‘Quem cria filho barbado é gato’
 
Com seus trabalhos já expostos em galerias – em Belo Horizonte, Ouro Preto e Fortaleza – Aristóteles de Gois Correia conta que conheceu as ruas obrigado pelo pai, José Correia. 
 
“Meu pai é ex-combatente e, após alistamento no Exército, disse que quem cria filho barbado é gato. Me deu uma passagem só de ida para o Rio de Janeiro. De lá para cá, aprendi a viver nas ruas”, explica o artista, que, após rodar o país de Norte a Sul, decidiu fincar “raízes” em Belo Horizonte, onde vive há 20 anos.