“A roupa é a melhor maneira de você se expressar para o outro sem falar nada. Ela é um posicionamento”. Assim a artista plástica e estilista mineira Isabela Solo justifica o mote da exposição “Reestructura”, que fica em cartaz até o dia 17 de abril no Museu da Moda de Belo Horizonte, colocando em cena peças de roupas produzidas a partir da reutilização de lonas coletadas de cavaletes de propagranda política.

Na mostra, a artista exibe uma coleção com dez peças – de vestidos a blusas – que se propõem a levantar questionamentos que ultrapassam o âmbito da sustentabilidade – embora esse também seja um dos focos do trabalho. “Eu levanto a bandeira do ‘vamos pensar?’. Não é uma coleção de posicionamento político, mas de posicionamento de olhar. Eu mixei todos esses candidatos em uma coisa só para levantar questionamentos: o que eles têm em comum? O que fazem por nós?”, explica a artista. 

A ideia do projeto surgiu da própria observação das ruas de Belo Horizonte, durante o período eleitoral de 2014. “Sempre via cavaletes enchendo a cidade e poluindo muito. Um dia decidi levar um para a casa, lavei, cortei, tentei costurar e deu certo”, lembra. Satisfeita com as possibilidades de composição e cores trazida pelas peças, ela viu a possibilidade de reutilizar o material. “O nome da exposição vem disso, de brincar com o olho de um, a boca do outro, reestruturando mesmo”, afirma. 

Exposição

O antigo uso do prédio do Museu da Moda de Belo Horizonte, que foi inaugurado em 1914, como Câmara de Vereadores de Belo Horizonte, é significativo para a exposição da artista. Tanto que, na instalação principal, ela transporta, simbolicamente, os políticos através das peças criadas. “São roupas que ficam penduradas em uma estrutura. Elas são como corpos e cada uma delas tem um som diferente, como os de protesto, pedaços de jingles políticos e barulhos da rua”, conta 

A intenção do trabalho, intitulado de “Veste o Voto”, é levantar questionamentos acerca das escolhas dos eleitores. Além da instalação, a artista apresenta um pouco dos processos criativos que culminaram não só na exposição, mas também em roupas mais comerciais, que misturam a lona a outros tecidos – uma proposta que ela pretende levar à frente com sua marca de roupas, a Solo. 

Em outro espaço, a coleção é apresentada em um vídeo em looping que mostra uma modelo transitando pela rua utilizando as roupas criadas por Isabela.

Isabela Solo

Isabela Solo cria suas obras usando materiais reciclados

A preocupação com uma produção mais ética não fica restrita apenas ao ambiente artístico. A sustentabilidade tem se tornado, cada vez mais, uma pauta importante na cadeia da moda. Isso, não só para grifes novatas, mas também para veteranas, como a Levi’s, que tem buscado processos de lavagem menos poluentes na produção de jeans, e a H&M, que planeja ter toda sua produção a partir de materiais reciclados até 2030. 

A advogada Barbara Vanoni, especializada em direito da moda e integrante da comissão do Audiovisual, da Moda e da Arte da OAB, explica que a pauta sustentável tem se tornado uma tendência cada vez maior no mercado. “Apesar de ser um desafio muito grande, principalmente quando falamos de reaproveitamento, porque não temos um descarte correto para a indústria, é um assunto essencial”, pontua.

Ela destaca, ainda, que a temática está diretamente ligada com as questões do direito da moda. Embora a sustentabilidade seja um tema costumeiramente associado a questões ambientais, ela explica que é uma atitude que vai bem além deste âmbito. “Existe também a sustentabilidade social, as questões das fast-fashion, do consumo desenfreado, do trabalho escravo, da concorrência desleal”, enumera.

Consumidores

Embora seja uma necessidade global, a busca por formas mais sustentáveis e éticas na produção de roupas e acessórios é também um pedido dos próprios consumidores, que buscam saber a origem daquilo que compram. “As empresas também têm que se adaptar a isso”, pontua a advogada. 

As formas de consumo também entram na pauta e ganham força com a criação de lojas físicas e virtuais que pregam o desapego. Seja no Instagram, seja nas ruas, não é difícil encontrar um brechó. As marcas seguem o mesmo caminho e incentivam o reaproveitamento dos produtos. Exemplo disso é a brasileira Dobra. Produzindo carteiras e outros acessórios com materiais parecidos com papel, a marca oferece descontos na compra de novas carteiras para aqueles que enviarem as antigas, já usadas. 

Na produção das peças, o material pouco usual utilizado na produção das roupas demandou uma atenção especial, principalmente quanto à técnica do trabalho. Isabela conta que, inicialmente, a parte mais difícil foi o recolhimento dos cavaletes das ruas da capital.

O trabalho com a lona também não foi simples. “Em vários momentos, foi muito difícil costurar, porque foi preciso encontrar a linha e agulha certas. Como a lona é um tecido muito plástico e que rasga muito fácil, foi preciso usar uma linha de nylon. A própria costura também foi difícil. Porque a lona era muito grande e não dobrava”, conta. 

As produção das peças também demandou tempo. A mais rápida foi feita em um dia inteiro, mas outras, como um tapete que liga a entrada do Museu à sala de abertura da exposição, levou cerca de duas semanas. “Tem também o tempo do corte, da lavagem, a escolha de como posicionar, a escolha das cores. Não é tudo aleatório. Então, cada uma também teve um tempo para isso”, explica. 

Isabela Solo/Arte

Serviço

Exposição “Reestructura”, da artista plástica e estilista Isabela Solo, em cartaz até 17 de abril no Museu da Moda de Belo Horizonte (rua da Bahia, 1149 – Centro). As visitas podem ser feitas de terça a sexta, das 9h às 21h, e aos sábados e domingos, das 10h às 14h.