O estêncil como trampolim para artistas darem vazão à criatividade já se incorporou ao dia a dia da capital mineira. A novidade é que a técnica não só vem ganhando cada vez mais seguidores, como é alvo de concorridas oficinas, além de ter ampliado seu espectro de utilização. Professor da Escola de Belas Artes da UFMG, Amir Brito Cadôr, por exemplo, criou seu próprio selo – o Edições Andante – no qual o estêncil marca presença ao lado de técnicas como offset, tipografia, jato de lima, carimbos e xerox. “O primeiro (título) foi com offset. Depois, nos outros, investiguei outros processos de impressão. A cada lançamento, procuro o processo mais adequado”, enfatiza Amir, que imprime livros com estêncil com a técnica do rolinho de espuma – e não com a de spray.
 
Tudo começou por causa de um debate com os alunos sobre a viabilidade financeira da publicação de livros. “Eles achavam que era preciso muito dinheiro para impressão, e a offset é de fato cara. Mas existem processos mais acessíveis e comecei a experimentar. Posteriormente, fui convidado para participar de uma exposição na Galeria Livrobjeto (localizada na Pampulha). Levei alguns livros que tinha feito com carimbos, jato de tinta. Foi nesse contexto que fiz um livro usando estêncil com o nome em várias línguas ‘Svart’ (holandês), ‘Black’ (inglês), ‘Noir’ (francês) e ‘Preto’. Um livro em papel preto e a impressão em branco”, observa.
 
Depois dessa experiência, foi um pulo para o uso do estêncil em seu trabalho artístico – embora o artista se dedique mais à gravura. “O interessante (do trabalho) é que obriga a simplificar a imagem para poder construir a máscara e ficar firme”, diz Amir, que participou recentemente de uma coletiva na Escola Guignard (UEMG) com trabalhos realizados através da técnica do estêncil.
 
UMA ONDA QUE CARREGA GENTE
 
O artista plástico Olister Barbosa incorporou ao seu trabalho a técnica do estêncil a partir de 2007. E uniu o útil ao agradável. Literalmente. Professor de Arte em Contagem, Olister introduziu a técnica junto aos alunos como mais uma linguagem. “Esse processo (estêncil) surgiu por conta de levar aos alunos estudo sobre a cultura hip hop, uma linguagem que os adolescentes gostam. E, para ensinar, é bom você ter experiência. A partir daí, comecei a fazê-lo. Trabalho muito com símbolos, então pego uma lata de refrigerante e a utilizo em diversos aspectos como produto, suporte, ideia. Posso usar esse molde de uma coisa só em vários momentos”, explica o artista, que agregou essa técnica ao seu trabalho, como nas exposições realizadas este ano – caso de “Cidade Industrial”, em Contagem, e “Temas Cotidianos”, em Belo Horizonte.
 
Aos 40 anos, com graduação em Design pela UEMG, em 2002, Olister acredita que o estêncil é uma das importantes – e necessárias – ferramentas de sua criação artística. “O meu trabalho é muito misturado. Utilizo o estêncil, o desenho à mão, o grafite”, observa o artista, com planos para voltar a expor no futuro.
 
COLETIVO
 
O uso do estêncil como plataforma das artes plásticas tomou conta definitivamente de Belo Horizonte. O Mulambo Coletivo – que reúne artistas e poetas –, por exemplo, participou da mais recente edição do projeto “Piquenique no Campus” (UFMG), em outubro, em uma oficina de estêncil. Antônio Horta – fundador e organizador do coletivo – diz que o importante, nesse caso, é aproximar o público de uma técnica alternativa. “Apresentamos uma proposta de trabalho colaborativo de criação. Para isso, levamos painéis para ser trabalhados com a técnica de estêncil, além de pintura livre. Fizemos uma oficina de serigrafia de camisetas, estamparia em camiseta com a mesma técnica do estêncil”, avalia o artista, acrescentando que o “foco” do Coletivo é mesmo o estêncil, embora estejam abertos a outras técnicas, como colagem e projeções.
 
Nos seus trabalhos com estêncil – desde camisas, adesivos – o tema é livre. “Tratamos desde o amor ao consumo, à política das cidades”, diz Antônio, que afirma que o Coletivo conta atualmente com dez colaboradores. O grupo, aliás, vai participar do “Luminárias Festival”, que será realizado sob o viaduto Santa Tereza, em dezembro. “Vamos montar uma espécie de banca para vender estêncil para as próprias pessoas fazerem suas artes, além de levarmos nossos trabalhos em estêncil. Também vamos estampar camisetas na hora”.