Não é por acaso. Arrancar gargalhadas de cada pessoa na plateia exige muito mais transpiração do que inspiração, admitem artistas. Há improviso? Tem, sim senhor! Mas ele é resultado de uma intensa preparação e depende de elementos como escuta, imaginação e até vulnerabilidade do ator, comediante ou palhaço na hora de envolver os espectadores. Cada vez mais presente nos palcos, o improviso é um atalho para arrancar risadas da audiência. “As pessoas gostam muito porque percebem que não havia como criar aquele conteúdo com antecedência e diminuem a resistência à piada neste contexto. Então muitas piadas que funcionam em um número de improviso não funcionariam em um stand up”, afirma Bruno Costoli, comediante que alterna entre os dois estilos cômicos há dez anos nos teatros de Belo Horizonte.

Ele faz parte da companhia humorística “Desculpa Qualquer Coisa”, que inclui dois números de improviso na apresentação, e também integra um espetáculo teatral em que todo o roteiro de uma investigação de assassinato, criado a partir de uma manchete de jornal, é determinado pelo público.
“Não sei dizer se o stand up me ajuda no improviso, mas com certeza o improviso me ajuda no stand up. Sempre há situações ocorrendo e você tem que estar preparado”, ressalta.

Atrativos

A sacada cômica vem como uma característica secundária dentro da espontaneidade gerada pela natureza do improviso, analisa a pesquisadora Mariana Muniz, professora da Escola de Belas Artes da UFMG. Desde 2012 ela faz parte do Instituto Internacional de Teatro Esporte, associação sediada em todos os continentes e que auxilia grupos a aplicarem conceitos elaborados pelo inglês Keith Johnstone, referência na arte.

“Há uma característica essencial no improviso: quando você está falando e ouvindo ao mesmo tempo, não dá tempo de parar para pensar no que dizer. Você entra em contato com seu inconsciente, fala e faz coisas que surpreendem até mesmo você, e é isso que provoca o riso”
Mariana Muniz
Pesquisadora da Escola de Belas Artes da UFMG

“Se é um comediante, ou se são palhaços, ou uma peça, um bom espetáculo de improvisação é aquele que surpreende, seja engraçado ou poético”, explica Mariana.

Este ano ela passou a colaborar com o grupo de palhaços Trampulim, da capital mineira. Um dos integrantes da trupe, Rafael Protzner, que fez curso com Keith Johnstone em 2014, destaca um dos pilares ensinados pelo mestre. “Ele apresenta os princípios do improviso de forma bem interessante. Em nenhum momento esconde o erro. Não quer que os improvisadores façam a cena perfeita. Se a cena começa a se perder, é para repetir e escancarar publicamente”, diz.

“Uma das coisas mais bonitas da improvisação e da palhaçaria é a vulnerabilidade. Estamos acostumados à proibição de sermos (vulneráveis), mas isso nos torna mais interessantes para os espectadores”, afirma Rafael. De acordo com ele, os preparativos de um improvisador para uma performance são considerados um treinamento e não um ensaio, já que não dá para antecipar o que virá no futuro. “Não é o que eu faço ou o que o público traz, é o que esse encontro proporciona”.

Tal contato se estende por todas as possibilidades cênicas e molda performances de apresentações teatrais tradicionais, como as do grupo Galpão, que usou métodos de improviso nas duas peças mais recentes, “Nós” e “Outros”. “O teatro é o exercício do aqui e agora. O ator tem que estar sujeito às intempéries e passar a ideia para o público de que a cena ocorre naquele momento, e não que trata-se de uma mera repetição morta”, diz o ator e diretor da companhia, Eduardo Moreira.

Keith Johnstone

Segundo Mariana Muniz, o Instituto Internacional de Teatro Esporte promove um trabalho de acompanhamento a grupos que pretendem utilizar conceitos elaborados desde a década de 1950 por Keith Johnstone, mas que no processo de difusão mundo afora acabaram sofrendo distorções.

“Um dos grandes equívocos é achar que improvisação é um espetáculo de piadas, mas não é sobre a piada, é sobre contação de histórias. Além disso, uma das dinâmicas do Teatro Esporte é separar os improvisadores em um formato de times, mas a competição só existe para o público; entre eles mesmo deve haver cooperação, mas muitos passaram a se focar nessa disputa”, aponta Mariana, que ainda sinaliza um terceiro equívoco. “Há espetáculos em que se tira o risco, então fica muito amarrado, se repetindo, o que vai contra o propósito dessa arte. Então se resume a contar histórias, correr riscos e colaborar”.

Keith Johnstone é inglês e se radicou no Canadá nos anos 1970, fugindo da censura que o governo britânico impôs a manifestações culturais no pós-II Guerra. “Por ele promover espetáculos de improviso, os censores não conseguiam ter acesso ao texto que seria encenado e portanto não as autorizavam”, relata Mariana.