Cortes de verba, projetos extintos, fechamento de galerias, centros culturais e teatros em vários cantos do Brasil, inclusive em BH. É inegável: o último ano foi ruim para o setor cultural. Entretanto, essa nunca foi uma área fácil de atuar. Os motivos? Falta de incentivo, espaço, oportunidade... O que fazer, então, para conquistar um lugar ao sol? Mesmo com o vento soprando contra, artistas de diferentes áreas, usando algumas estratégias, já conseguem sobressair no cenário mineiro.

Caso do grupo cultural Sobrilá. Ao invés de buscar por uma chance no mercado, os integrantes, literalmente, a criaram. Segundo Éder Reis, de 32 anos, a iniciativa surgiu após ser identificada uma carência cultural em Sabará, na região metropolitana.

O primeiro passo foi dado já com uma mostra, intitulada “Cá”, em julho de 2015. “A repercussão foi tão boa, que várias pessoas nos procuraram para fazer aula de teatro. A gente não esperava por isso. Logo de início, 70 pessoas de inscreveram”, conta Reis.

Hoje, o Sobrilá funciona como um centro cultural, que oferece também oficinas de balé, circo, cinema, pintura, canto, dentre outras modalidades.

Assim como a maioria dos atores, Reis está envolvido em outros projetos – uma maneira de tentar ampliar os lucros com a profissão. Um deles é a Cia Miúda de Teatro, criada por alunos do Centro de Formação Artística (Cefar) do Palácio das Artes, após desenvolverem as montagens “A Máquina de Fazer Espanhóis” e “19h45”. “Em março ou abril, vamos fazer a estreia oficial, com novas montagens”, adianta.

Com dez anos de atuação e apesar de otimista em relação ao futuro, Reis avisa: “infelizmente, ainda não é possível viver só da arte”. Contudo, ele incentiva os novatos. “Se tem amor, tem que correr atrás. Diria aos estreantes para estudar, fazer uma boa escola, workshops, oficinas. (...) E, em termos de aprendizado, a escola é o teatro, por isso, acho que começar por lá é melhor”, indica.

Artes visuais
O pintor Rafael Zavagli, de 34 anos, compartilha a opinião. Para ele, ainda que o cenário não seja dos melhores, os artistas visuais têm que acreditar em sua obra. “É preciso ser honesto em relação ao próprio trabalho; tem que bancá-lo acima de tudo e ser o mais autoral possível”, afirma.

Filho dos artistas plásticos Sandra Bianchi e Mário Zavagli, ele confessa que o apoio da família foi um facilitador. “Tive todo o material, que é caro para o artista, dentro de casa”. Ainda assim, dez anos depois de se formar na Escola de Belas Artes da UFMG, ter exposto no Rio de Janeiro, conseguir ser representado pela galeria Celma Albuquerque, ter realizado mostras individuais, entre outros feitos, Rafael assegura: “não estou satisfeito com o que ganho”.

Diante disso, a dica dele é trabalhar em atividades paralelas para se manter. “Dá para fazer coisas dentro da própria área, como, por exemplo, dar aula”, frisa.


O risco de mesmo quem persiste

“Não tem problema nenhum sonhar que vai ganhar na Mega-Sena, mas você não pode fazer a sua vida contando com isso. Na música, é mais ou menos por aí”. A afirmação é do músico Leo Moraes, de 44 anos. Em 1998, ele integrou o grupo Gardenais, que quase decolou nacionalmente. “Batemos na trave”, recorda.

Com um disco pronto, a banda viu o sonho desmoronar quando o produtor musical Tom Capone faleceu, em 2004. O Gardenais tinha acabado de marcar uma reunião com Capone para discutir o lançamento do disco. “A frustração foi grande, porque tinha uma gravadora famosa interessada em nós. Depois, pensamos que outra iria se interessar, mas isso não aconteceu”, conta Moraes.

Hoje, ele é guitarrista e vocalista do Valsa Binária – criado em 2009 –, mas diz não ter mais a ilusão de ser descoberto. “Isso acontece com poucos. Quem trabalha com música precisa entender a realidade da profissão. Mesmo artistas que estão bombando, às vezes, precisam complementar a renda com trabalhos paralelos”, afirma.

Para ele, não existe mais uma receita do sucesso. “Antigamente, era um caminho natural, fechar com gravadora, fazer CD, shows... Hoje, não existe mais aquele grande momento de definição. Cada um faz um caminho”, considera Moraes, que é dono da casa de shows A Autêntica e do estúdio Pato Multimídia, dos quais tira a sua maior renda.

 

Valsa Binária

VALSA BINÁRIA – “A banda consegue se pagar e só de existir é um sucesso. Já temos dois discos lançados”, diz Moraes (à frente, na foto)
 

Bancar o próprio livro

Um grande desafio para os artistas, sem dúvida, é conseguir a primeira oportunidade na carreira. A escritora Bruna Kalil Othero, de 20 anos, sabe bem disso. Ela acaba de estrear no mercado com o livro “POÉTIQUASE”. “Antes, mandei meus originais para algumas editoras e elas me responderam dias depois com um orçamento. Diziam que ia custar ‘tanto’, como se eu fosse comprar o serviço. Fiquei assustada”, relata. Bruna não conhecia ninguém no meio até que a editora Letramento resolveu investir na jovem.

Vencedora do prêmio Sarau Brasil, com o poema “Agora Nesse Quarto”, Bruna aconselha a quem está começando a concorrer em editais. “É um diferencial”. Ela, afirma, contudo, que é importante o escritor procurar outras formas de sobrevivência. “O brasileiro ainda lê pouco. Não tenho a ilusão de que vou pagar as minhas contas só fazendo isso. A não ser que eu fique famosa. E isso não é questão de sorte, nem talento; mas de ter contatos e conseguir ser publicado por uma editora famosa”.

A jovem sabe: o livro on-line é uma forte tendência, porém diz não abrir mão do papel. Visão diferente de J. Cláuver, de 76 anos. “Antes, eu tinha leitores só em BH e na Serra do Cipó, onde vivo. Depois que lancei o livro digital, ele começou a chegar no mundo todo, do Ceará à Polônia... Faço divulgação também no meu blog, Facebook e Twitter. É incrível o alcance”, destaca ele, que se lançou como escritor em 2009, após se aposentar como militar.

Já João Gabriel Furbino, de 26 anos, recomenda aos iniciantes investirem em assessoria de imprensa. “Foi o que facilitou para mim. A divulgação do meu livro em Minas foi boa”, diz. O jovem é outro que entrou no ramo literário em 2015, quando lançou o primeiro livro, “No Meio da Rua”. Para ele, que sonha viver da carreira de escritor, já foi uma vitória o livro conseguir se pagar.
ALÉM DISSO
A gerente de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado (FCS), Uiara Azevedo, destaca que uma forma alternativa de ser visto é por meio das redes sociais. “A internet impulsiona demais o trabalho. Hoje, temos o Instagram, por exemplo, que é para postar fotos e muita gente acaba compartilhando”, orienta.

Outra dica é desenvolver um bom portfólio, no qual seja possível identificar a linha de trabalho do artista. “O mercado tem crescido e podemos atribuir muito disso à abertura do Inhotim e do CCBB, à qualificação das galerias e à maior preocupação das instituições em trazer grandes mostras e feiras de artes”, diz Uiara. Ela avisa, porém, que os jovens devem ter paciência, pois, em geral, apenas artistas consolidados conseguem viver só dessa profissão. “Até chegar lá, é um percurso demorado”.

Enquanto isso, uma boa dica é se inscrever em editais. A própria FCS, por exemplo, está com inscrições abertas, até o dia 29 deste mês, para ocupação das galerias do Palácio das Artes e da CâmeraSete. Serão selecionadas cinco propostas, podendo se inscrever artistas e coletivos. O resultado será divulgado em 23 de fevereiro. Mais informações no fcs.mg.gov.br.

 

Ouça a música “Afogamento”, da Valsa Binária:

 

Veja uma intervenção artística do Centro Cultural Sobrilá:

Veja algumas obras de arte de Rafael Zavagli: