Camila Lacerda já está enrolada na toalha, após quase duas horas pintando nua, num dos corredores do teatro Francisco Nunes. Estava chateada com a cantada que havia recebido durante o processo. “E olha que eu conheço a pessoa!”, lamentou a artista plástica, ao participar de uma performance como parte da programação do Verão Arte Contemporânea (VAC).
 
“Muitas pessoas ainda veem o nu como uma coisa sexual e não é. Você pode ficar sem roupa sem ter nada de sexual, apenas para um estudo”, registra Camila. 
 
Esta falta de entendimento do nu e do sexo como elementos da expressão artística é hoje uma das principais discussões da classe artística no Brasil, temerosa por novas manifestações de censura, como aconteceu no ano passado.
 
A performance no Francisco Nunes teve justamente a intenção de reafirmar o lugar da nudez na arte, valendo-se de um quadro polêmico de Édouard Manet, de 1863, que exibe uma mulher sem roupa ao lado de dois homens bem trajados, durante um piquenique. Em cinco setores do teatro, do palco ao foyer, modelos e atores reproduziram à sua maneira o conceito do quadro.
 
Transexuais, gays e heterossexuais serviram de inspiração para pintores recriarem a obra de Manet. “É uma metalinguagem a partir da reprodução de um quadro que é reinterpretado por artistas diferentes, de diferentes maneiras”, observou Marcello Guimarães, atendente em uma locadora de filmes, na região central, que entrou no teatro “sem saber de nada”.
 
A única informação que Guimarães tinha era a discussão sobre o quadro francês, que já conhecia de imagens na internet. Ficou intrigado com as diversas combinações de cenários e pessoas de gêneros diferentes. “A maneira como o nu será recebido depende de cada pessoa, do olhar sensível de cada um. Não acho que seja uma imoralidade, mas não é todo mundo que compartilha dessa opinião”, constatou.
 
Olhares divergentes
Mesmo numa atividade em que estava evidente a posição sobre o uso de erotismo nas artes, não faltaram opiniões divergentes. Ante uma mulher nua, um senhor que preferiu não se identificar não pensou duas vezes: “O corpo da mulher é mais bonito de se ver. Já o outro...”, observou o visitante, apontando para uma transexual numa cena na entrada do teatro.
 
Apesar dos olhares curiosos e de recriminação, Camila viu importância também em tirar a roupa juntamente com os modelos. “Necessário pelo que vem acontecendo. É minha forma de apoiar quando retratar o nu ganha esse caráter de censura”, afirmou a artista, que, nunca tinha se apresentado nua em público. “Só em casa, numa performance que gravei em vídeo”.
 
NU1O ponto de partida da performance foi um quadro de Édouard Manet, de 1863
 
‘A arte precisa ser livre’, defende espectador da performance
 
Frequentador assíduo do Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, próximo ao teatro Francisco Nunes, o bancário aposentado Marcos Vinícius acompanhou, pela primeira vez, uma performance com nu. Pensou muito antes de dar a sua avaliação: “É muito interessante e inovador. A arte precisa ser livre”, assinalou o visitante, para quem a nudez deve ser vista com naturalidade.
 
Assim como boa parte do público, convidado a sair da plateia e circular pelas performances que ocorriam em lugares diferentes do teatro, o estudante Matheus da Silva não ficou parado. A mudança de trilha sonora, de uma música clássica para o hit dos anos 80, “Da Da Da”, do grupo alemão Trio, era o sinal para refazer o percurso.
 
“Para além da nudez, o que está sendo mostrado aqui fala de vários Brasis, principalmente aquele que temos hoje”, registrou. Para ele, a arte nunca deve ficar numa posição cômoda. “Para que ela serviria, então, se não para nos fazer pensar sobre questões que não viriam de outra maneira? É por isso que os governos totalitários sempre querem acabar com ela”, questionou o estudante.
 
Modelo há três anos, além de trabalhar com dança e teatro, Camila Souza participou de uma das performances. “Achei fantástico. Achava que não ficaria à vontade nua e fiquei feliz por ter não me preocupada com o que achariam do meu corpo”, destacou. Ela e seu grupo fizeram referências à política na primeira parte, e em um momento posterior, adotaram um discurso mais leve, sobre o Carnaval.