Eram como filmes pornográficos atuais. O cinema nasceu no final do século 19 já obsceno e imoral, com imagens em preto e branco e sem som que despertavam o desejo sexual em seus espectadores. As cenas podem até ser ingênuas, vistas agora, mas desde o seu início a representação sexual estava relacionada ao proibido, muito em função da forma como a sociedade sempre tratou a exposição do corpo nu, promovendo uma discussão entre erotismo e pornografia que até hoje não saiu de cartaz.

A maneira como os tabus sexuais se adaptam aos novos tempos é uma questão que permeia o livro de Rodrigo Gerace, “Cinema Explícito – Representações Cinematográficas do Sexo”, lançado pelas editoras Perspectiva e Sesc. “Fui muito motivado em saber quais eram os critérios de obscenidade, dentro de uma leitura mais sociológica, buscando entender como cinema assumiu um discurso moralista de sublimação do sexo”, registra o autor.

Mesmo quando os filmes que não eram destinados propriamente a excitar seus espectadores abraçavam o sexo explícito, retirando-o da clandestinidade e elevando-o a um patamar de arte, a polêmica sempre se sobressaiu. “Se podemos dizer assim, não existe uma pornografia, mas pornografias. Tem aquela mais conhecida, feita em escala industrial a partir dos anos 70, e outras que trilharam um caminho mais alternativo e que podem ser vistas até hoje”, analisa.

Rodrigo cita a escritora e ativista Susan Sontag, para quem a pornografia é apenas uma invenção cultural, construída para categorizar, julgar e regulamentar o sexo. “Um beijo na boca, num filme de Thomas Edison, um dos pioneiros do cinema, foi tachado de obsceno na época. Mais recentemente tivemos em cartaz ‘Love’, que é cheio de cenas de sexo explícito, em 3D. O conceito de obscenidade muda de acordo com os discursos moralistas de cada época”, explica.

Contexto

O autor destaca que somente a presença de sexo explícito não é garantia de transgressão, como se convencionou. “O que define esses filmes como transgressores é o contexto. Nos trabalhos de (Pier Paolo) Pasolini não havia o explícito, mas eram transgressores da mesma forma, por subverterem os códigos da época (anos 60 e 70)”, compara Rodrigo, que define o cinema uma arte obscena, pelo potencial de revelar tudo o que a sociedade quer esconder.

No Brasil, apesar da liberdade em falar sobre sexo, especialmente na pornochanchada (auge nos anos 70), era o moralismo que dava o tom. “Na pornochanchada, embora não seja possível generalizar, os filmes tratavam de questões tabus, como virgindade e adultério, mas no fundo revelavam olhares machistas e homofóbicos. O livro também busca desmascarar esses discursos saturados do sexo que eram, na verdade, conservadores”.