A obra "O Livro de Cada Um", de Leida Reis, que nos chega pela editora Manduruvá, reúne contos inéditos da escritora-jornalista, que apresenta, em cada uma de suas estórias, personagens-transeuntes da vida e das páginas de uma ou mais obras literárias. Na verdade, cada um ou uma figura humana em Leida Reis faz-se metáfora da existência engajada no processo de tentar existir, ainda que às vezes misturando e confundindo o que é "poiésis" e o que é real.
 
Por meio de pungentes, até cortantes "scripts" policiais e de suspense, a escritora vai apresentando seus casos que obviamente têm algo a ver com sua passagem pelas salas de redação e investigação de crimes, resultando textos de mistério, em que a morte e a crueza se fazem presentes - e sem escrúpulo algum.
 
Original e certeira - a cada relato pontilhado de delicadezas surpreendentes (como o primeiro livro de uma menina que acaba de perder seus tios numa explosão), a autora vai  ressaltando o livro da vez: corro a anotar esses indícios, os que não li serão lidos - pois tenho certeza de que - ao voltar ao tomo que agora tenho do lado - estarei munido de mais dados (e dardos!), para nova luz sobre tais páginas escritas com tinta vermelha.
 
Vou explicitar -  todos os (as) que aparecem nestas tramas contistas revelam seu ponto-chave relativo a certa obra literária preciosa, algumas bem conhecidas, outras, menos; e vão de encontro ao adeus, ao  desengano ou à presença de amor e ódio pela prática da escrita e da leitura dos amálgamas da memória  retidos pela observação ferina da "expert". Dilaceradores, cito apenas alguns: o ladrão de livros e sua mãe desesperada e cínica; o talvez assassino de um velho que retém em casa uma obra internacional e cara; o analfabeto que não revela à amante o seu "handicape", sem perceber que não saber ler poderia ter sido sua redenção. Imperdível.