Antes de engatar a primeira marcha em um trator que será usado como parte de um plano para reaver o dinheiro confiscado pelo governo argentino em 2001, um borracheiro de uma cidade interiorana enche o peito para dar um grito de guerra peronista, cena que, à luz das recentes eleições, é muito representativa da situação sociopolítica do país vizinho.
 
Esta leitura está muito impregnada em “A Odisseia dos Tontos”, filme protagonizado por Ricardo Darín – ator argentino de maior projeção internacional – e que estreia nesta quinta-feira nos cinemas. A começar pela ideia de “tontos” presente no título, que simboliza o cidadão comum enganado e que resolve dar um basta nos seus “opressores” a partir de uma vingança.
 
darín

Trabalhadores de uma pequena cidade resolvem montar uma cooperativa agrícola, mas são surpreendidos com plano econômico que confisca todo o investimento

 
Este ato nada mais é do que tomar de volta o que lhe fora roubado por um golpista, que se aproveitou do “curralito” (como chamaram o confisco do dinheiro no banco). Esta sensação de “dar o troco” em agentes corruptos oferece ao filme um ar de desabafo, resposta que foi compreendida nas urnas a partir da volta do partido peronista ao poder no último domingo.
 
Resgate
Darín faz uma espécie de resumo de vários de seus personagens que evidenciaram os efeitos da crise econômica. Desta vez, porém, não se contenta em mostrar os pequenos dramas de um povo sofrido, interpretando um homem que, após ver a ideia de recriação de uma cooperativa agrícola ir por água abaixo, reúne todos os trabalhadores que investiram no negócio para arquitetar o resgate do dinheiro.
 
“A Odisseia dos Tontos” tem duas partes distintas. A primeira se dedica a mostrar a ideia de união entre os moradores de uma pequena cidade e as consequên-cias, algumas trágicas, geradas em suas vidas, pelo plano econômico. Na metade seguinte, deixa de lado o drama social para se tornar um divertido thriller de ação, criando suspense sobre a execução do plano.
 
Embora um pouco longo, o primeiro movimento estabelece o vínculo daqueles “tontos” com o público, que poderá se identificar com vários deles, todos “homens de bem” que só querem o que lhes pertence por direito, como ressalta o personagem de Darín a certa altura. Para quem viveu o Plano Collor no Brasil, no início dos anos 90, é possível também entender a angústia de tantos sonhos despedaçados. 
 
arte

clique para ampliar