O troféu já passou da sala para o quarto da casa localizada no bairro Aparecida, onde Jai Baptista convive com outras nove mulheres, entre mãe, irmãs e sobrinhas. Isso quando não leva o Candango para as pré-estreias do filme “Vazante” pelo Brasil afora. “Não desgrudo dele. Tenho que aproveitar o momento”, registra a atriz mineira, que saiu do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro, como a melhor atriz coadjuvante do certame.
 
Clarice, mãe de Jai, está bem orgulhosa. Outras duas filhas, bailarinas, ganharam prêmios neste ano no Festival de Joinville, um dos principais do país dedicado à dança. A atriz brinca que uma fada lhe ajudou, transformando a abóbora em carruagem. Realmente, parece que tudo conspirou para ela estar no elenco do filme, uma das estreias de hoje nos cinemas. “Foi algo bem mágico mesmo. Uma pessoa, que ninguém sabe quem, me indicou para os testes”.
 
No mesmo dia, Jai fez um teste para um comercial e chegou atrasada. “Tive que correr, pois o tempo que Dani (Daniela Thomas, diretora) ficaria para ver era muito curto. A minha sorte é Sandra Corveloni, que faria o teste comigo, havia perdido o voo para cá”, lembra. A atriz não foi aprovada no outro teste, mas ouviu da cineasta que, ao vê-la entrar na sala, sabia que o papel seria dela. Situação que se assemelha aos outros momentos de sua carreira.
 
Em 2002, estava numa escola de teatro de Diorcelio Silveira quando ele irrompeu em sua sala para fazer uma pergunta: “Você sabe cantar e dançar?”. A resposta positiva a levou ao espetáculo “Estrela D’Alva”, de Pedro Paulo Cava. E por vários anos teve no trabalho sobre o palco o seu ganha-pão, participando principalmente de musicais. “Teatro é diferente de cinema, pois o personagem vai crescendo a cada dia, abrindo novos horizontes para ele”, compara.
 
No set, observa, a construção se dá mais no roteiro. A Feliciana, sua personagem em “Vazante”, nasceu neste processo. “Apesar de ser muito forte, ela submissa, tendo que ficar sempre disponível para o dono da fazenda. Foi difícil, já que ela tinha um gestual diferente e eu não podia piscar muito”, descreve seu papel numa história sobre um português, dono de escravos, que se casa com uma menina de 12 anos.
 
O papel da mulher naquela sociedade machista foi o que lhe mais chamou a atenção. Não esperava que o filme fosse duramente criticado por ser racista, em Brasília, por valorizar o status quo e não dar voz aos personagens negros. “É importante o negro assumir esse lugar, se colocar, mas o filme é a ótica de Dani, sobre mulheres que eram subjugadas. Uma família vende a criança de 12 anos para o fazendeiro numa época que isso era feito às claras”, analisa.