Neste mês, os assinantes da Netflix se depararam com um aumento de até 21% no valor da assinatura. O pacote mais caro, para uso de cinco aparelhos simultaneamente e conteúdo em 4k, subiu de R$ 37,90 para R$ 45,90. O reajuste acontece no mesmo momento em que diversas empresas anunciaram investimento em novas plataformas de streaming, como Apple, Disney e Warner.

Essas duas situações colocam uma questão ao mercado: um aumento de preço e de concorrência poderia colocar à prova a posição da Netflix como líder absoluta no segmento, com 148 milhões de assinantes em mais de 190 países?

Para o diretor audiovisual Roney Giahé, a única empresa que tem um poder de ameaçar o posto da Netflix é a Disney, que anunciou o lançamento de uma plataforma própria em 2020. A empresa já possui um catálogo invejável (as animações, a Marvel, a Fox e a Lucas Films), mas só deve entrar no mercado quando puder garantir a qualidade no serviço e na navegabilidade. A Disney anunciou um investimento de US$ 16 bilhões no projeto, US$ 1 bilhão a mais do que o aporte informado pela Netflix em 2019.

“As grandes empresas demoraram muito para investir no streaming, enquanto a Netflix está nesse mercado há muitos anos, o que faz com que ela detenha 51% dos usuários de streaming nos Estados Unidos. A empresa já anunciou temporadas novas de séries de sucesso, fidelizando os usuários. Ela poderá sofrer um tombo com a concorrência da Disney, mas isso não vai acontecer agora”, afirma o diretor.

Para ele, o aumento da concorrência tende a beneficiar os usuários, pois as empresas serão obrigadas a investir mais em conteúdo, tecnologia e preços atrativos.

Preço

Para o autor do canal do Youtube Mixido, dedicado a filmes e séries, Rodrigo Castro, o reajuste de preços pode ter impacto para a Netflix num breve futuro. Especialmente porque algumas outras plataformas concorrentes oferecem promoções e valores bem mais atrativos – como os dois principais concorrentes do momento no Brasil, Amazon Prime Video e Globo Play.

“O preço num país como o nosso é definidor na hora de escolher um serviço como a Netflix, sem dúvida alguma. E com certeza o aumento do preço vai influenciar nas assinaturas do serviço nos próximos anos. Isso num país em que boa parte das pessoas pirateia, seja porque quer ou porque não pode mesmo pagar”, explica.

Assim como Roney, Rodrigo Castro acredita que a chegada do aplicativo da Disney será um baque para a Netflix, que não poderá ter mais em seu catálogo os filmes da Marvel e de “Star Wars”, por exemplo, além de seriados líderes de audiência, como “Grey's Anatomy” (produzida pela ABC, que pertence à Disney).

“A Netflix obviamente sabe disso. A prova é essa enxurrada de conteúdo original novo que ela despeja a cada semana na plataforma. Se tem qualidade ou não é uma outra discussão, mas a empresa se movimentou pra enfrentar essa realidade que tá batendo na porta. Ela continua conquistando novos assinantes com esse conteúdo original, mas os resultados já não são tão impactantes”, opina Rodrigo.

Na quarta-feira (24), a Netflix anunciou que vai ampliar o conteúdo brasileiro em sua plataforma, com a aceleração da produção nacional. Segundo o diretor global de conteúdo da empresa, Ted Sarandos, haverá investimento em 30 filmes e séries no país nos próximos anos. Maisa Silva, Fábio Porchat, Larissa Manoela e Thalita Rebouças são algumas estrelas das novas produções. 

Reinado

Já o diretor do site Série Maníacos, Michel Arouca, acredita que será muito difícil alguma outra plataforma conseguir fazer frente à Netflix num breve futuro. “Não é somente uma questão de comparar o catálogo, mas também de tecnologia. Nenhuma outra plataforma presente no mercado conseguiu chegar aos pés da Netflix em relação à qualidade do streaming e na rapidez de carregamento da imagem”, afirma.

Ele lembra ainda que a empresa de streaming se firmou no mercado investindo na qualidade de suas redes sociais. “A empresa tem senso de humor, possui um timing incrível e entende como funcionam os memes na cultura brasileira. A Globo Play tem aprendido com a Netflix a trabalhar as redes sociais, mas ainda tem questões tecnológicas a resolver no serviço de streaming”.

Arouca lembra ainda a importância de “Roma”, de Alfonso Cuarón, para a plataforma. Rejeitado por grandes estúdios e produzido pela plataforma de streaming, o filme recebeu três Oscars em 2019: melhor fotografia, melhor filme estrangeiro e melhor diretor.

“Houve uma reunião na Academia para discutir mudanças nas regras em relação ao streaming (se as produções poderiam ou não concorrer à estatueta) e nada aconteceu porque, no futuro, todos os grandes estúdios terão as suas próprias plataformas”, explica Arouca. “Se 'Roma' tivesse sido exibido no cinema, poucas pessoas teriam dado atenção, pois é difícil encontrar quem assista a um filme mais lento por mais de duas horas. Na Netflix dá certo, porque você pode fazer uma pausa”.

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