Você pode até perguntar quem é Bárbara Colen. Mas em poucos meses esse nome estará divulgado em muitos filmes e séries de TV. Depois de estrear no cinema com o curta-metragem “Contagem”, em 2011, e participar de “Aquarius” (2016), como uma Sonia Braga mais jovem, esta belo-horizontina de 33 anos, que trocou uma carreira estável no Ministério Público pela profissão de atriz, não parou mais de trabalhar. Após o lançamento de “No Coração do Mundo”, em exibição nos cinemas, em que ela retoma a personagem de “Contagem”, Bárbara não sairá mais de cartaz. “Não vivemos mais uma era de ator ‘divo’. O que os cineastas querem são pessoas boas de trabalhar”, registra, durante entrevista ao Hoje em Dia, em seu apartamento no bairro Santa Efigênia.
 
Após “Bacurau” ter conquistado o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, a foto do filme que mais percorreu o mundo foi a de uma cena em que você aparece em close. Foi a certeza de que fez opção certa ao abandonar uma carreira estável como servidora do Ministério Público, em Belo Horizonte, para se dedicar ao cinema?
Engraçado você tocar nessa questão da foto, porque quando saiu a lista de (filmes selecionados em) Cannes, eu já sabia um dia antes. A (produtora) Émile (Lesclaux) tinha me avisado. Mas quando eu acordei, abri o Instagram e dei de cara com a foto, foi uma sensação muito louca (risos). Me deu um pouco de vertigem, sabe? Usaram o frame de uma cena que tinha sido muito emblemática, muito difícil de fazer, e que estava ali como a cara do filme, em meio a tantos atores. Respondendo à sua pergunta, eu acho que sim. Quando eu saí do Ministério Público, já entrei em “Aquarius”. Ali já tinha essa confirmação. Para mim, foi assim: “Ok, isso pode acontecer”.
 
Em “Aquarius”, você teve um papel importante, mas pequeno, como a Sônia Braga jovem.
Era pequeno, mas apontava para uma possibilidade concreta. Laboralmente, teve isso para mim: já estou em outro emprego, derrubando este mito de que não se pode abandonar algo estável. A minha grande dúvida quando estava no Direito era: eu vou conseguir trabalhar como atriz? Terei oportunidades para estar ativa? Mais do que a questão da popularidade, era e continua sendo para mim o fazer. O que me dá alegria é poder ter uma rotina como atriz. O que vem depois é delicioso, ao ter o reconhecimento do trabalho, os prêmios. E é também muito boa a sensação de trabalhar em projetos de qualidade, de estar contando uma história muito interessante. Todo o esforço que você fez não foi em vão. Por isso tudo, a dimensão de Cannes é mais uma alegria profunda de falar: “Ok, vou poder continuar a trabalhar”.
 
A visibilidade de “Bacurau” já vem lhe rendendo convites para outros trabalhos no cinema?
Pois é, está muito interessante. Este ano está sendo uma coisa atrás da outra, graças a Deus. Estou fazendo uma série para o Canal Brasil, chamada “Hit Parade”. Acabei de filmar uma minissérie para a Rede Globo, “Onde Está o Meu Coração”, do George Moura. E tem a possibilidade de outros filmes para o final do ano. O engraçado disso tudo é que, das coisas que fiz, ainda não saiu muita coisa. “Bacurau” ainda não estreou. O filme do Eryk (Rocha) também não (“Breve Miragem do Sol”). O da Maria Clara Escobar (“Desterro”) também não. “No Coração do Mundo” foi lançado agora. 
 
Acredito que as indicações dos diretores com quem trabalhou acabam lhe empurrando para outros trabalhos.
Acho que também tem muito a ver com a coisa de, cada vez mais, não vivermos mais uma era de ator “divo”. Não há mais espaço para isso hoje. O que os cineastas querem são pessoas boas de trabalhar. Como você vai viver um processo de três meses, como aconteceu comigo em “Bacurau”, com as filmagens no Rio Grande do Norte, é melhor que seja com quem você goste de estar junto. Além da questão do trabalho, conta muito uma questão pessoal. Um diretor liga para o outro e fala que é bacana de trabalhar com determinada pessoa. Acho que tem essa indicação, sim. Quando o Kleber (Mendonça Filho) foi fazer o “Aquarius”, ele ligou para os meninos da (produtora mineira) Filmes de Plástico (que fez “Contagem”), para perguntar como eu era.
 
“A coisa do brincar com os gêneros é algo que tem me atraído nos filmes que tenho feito. É um lugar gostoso de estar. Eles lhe dão alguns códigos muito bem definidos, permitindo fazer metáforas”
 
Com esta confiança do diretor, você acaba criando parcerias, como foi o caso com Mendonça Filho, que a chamou novamente para trabalhar com ele em “Bacurau”, e da Filmes de Plástico, com “No Coração do Mundo”.
É muito gratificante ser convidada novamente para trabalhar com as pessoas. É uma coisa que, para mim, diz muito sobre tudo – afinidades pessoais e profissionais. Além de ser tudo mais fácil, você vai desenvolvendo afinidades artísticas. Você entende melhor a maneira de a pessoa dirigir, tem um diálogo mais fluido... Por mais que você seja um ator de muito tempo, querendo ou não, quando entra num set, é sempre algo novo, uma nova direção. E aí você tem que afinar um diálogo para aquilo acontecer. Cada processo você precisará entender a identidade dele. Mas quando você volta a trabalhar com as pessoas, esse caminho já está meio andado. Você não gasta muito tempo, porque a confiança já está estabelecida. Para mim, um ambiente de set determina muito o trabalho, até na maneira como atuo.
 
Além de uma pessoa de confiança, os diretores também procuram uma personagem. Já deu para perceber o que exatamente eles procuram em você?
É uma pergunta muito difícil de responder (risos). Eu não sei muito bem. Acho que cada um busca uma coisa. Difícil dizer qual é o meu tom, porque é mais uma questão de energia. Talvez... (pensativa) mulheres muito intensas, personagens bem presentes na vida, mostrando força de decisão. Este processo é muito misterioso. Às vezes nem eles sabem. Quando eu fiz o “Contagem”, eles queriam uma pessoa mais velha, de 40 anos. Eu estava com vinte e poucos na época. Eu já parei de ficar frustrada ao fazer testes. Você nunca irá saber se dará certo.
 
BARBARA

 

Você lembra um pouco a Dira Paes, tanto no biotipo quanto na dedicação, pelo menos num primeiro momento da carreira, ao cinema.
Acho que a coisa do tipo brasileiro é muito importante. Eu me vejo na rua o tempo todo. Estou no centro da cidade, olho para o lado e penso: “Nossa, essa menina é igual a mim”. E escuto o tempo inteiro alguém falando que tem uma prima parecida comigo. Pareço muito com um tipo de mulher brasileira. Quando a gente faz este tipo de cinema que venho fazendo, a gente quer alguém que seja comum. Você quer uma pessoa que seja real. Tento ser o mais próxima das histórias que estou ajudando a contar, se não dá um distanciamento esquisito.
 
Nascida em BH, Bárbara cursou Direito e foi trabalhar no Ministério Público antes de optar pela carreira de atriz
 
E, como a Dira, você tem feito praticamente cinema. É algo intencional?
É muita sorte. Eu amo cinema. Ele foi a minha escolha de vida. Tenho feito algumas séries, que são um outro formato e que tenho gostado muito. Minha participação na TV até agora é em torno de projetos que têm produtoras independentes, trabalho de locação e uma equipe muito cinematográfica. Como eu demorei para assumir esta profissão, eu prezo muito pela qualidade destas escolhas – o que estou trazendo, o que vou contar para o mundo, se estamos tocando em pontos da realidades. É o que me interessa. Tive a sorte de estar em projetos com narrativas políticas, personagens complexos e que vão ajudar as pessoas a encontrarem o seu lugar de ser e de estar no mundo.
 
Com uma semana de Cefart - Centro de Formação Artística e Tecnológica, você foi convidada para fazer um teste para o “Contagem”. Como aconteceu?
Foi um desses e-mails que você recebe aleatoriamente. Não tinha garantia de nada. Não conhecia os meninos (da Filmes de Plástico), mas tive uma intuição de ir lá e fazer (o teste). Fiz, achei horrível e saí chorando... Tinha que falar um monólogo e usei o mesmo texto da prova do Cefar. Mas depois me ligaram, para fazer outro teste, já com o ator com quem contracenaria. Lembro que, ao filmar, aquilo tudo saiu muito naturalmente. Aí percebi que estava no lugar certo. Foi uma sensação de muito pertencimento.
 
E como foi voltar ao personagem em “No Coração do Mundo”?
Fiquei muito feliz, porque a Rose é um personagem que foi muito complexificado. E ter a oportunidade de trabalhar num registro com mais camadas, podendo botar um tanto de coisa nela... Eu demoro a entender as personagens. Às vezes eu só a entendo no final do processo. No último dia de filmagem, eu digo: “agora entendi!” (risos). Às vezes, nem durante o processo, só quando vejo o filme muito tempo depois que eu vou ter um contato mais profundo com aquela pessoa que criei. Quando filmamos “No Coração do Mundo” já tinha feito “Contagem” há seis anos. A Rose já vivia dentro de mim. Quando você volta à personagem, tem outro entendimento.