Quem acompanha as postagens de Daniel Neto, o Nenel, nas redes sociais, não tem dúvida de que ele é uma espécie de Midas dos botecos de Belo Horizonte. Tudo o que ele toca vira ouro – ou melhor, todo bar que visita passa a ser ponto de referência da baixa gastronomia, segmento em que virou especialista, a partir de um blog (hoje inativo) criado há exatamente dez anos.

“Quando indiquei o bar da Alaíde, no Planalto, no dia seguinte o lugar ficou entupido. Fiquei até com consciência pesada e perguntei a ela se precisava de alguma ajuda. Na primeira vez que fui, só tinha uma mesa ocupada”, lembra Nenel, que vê seu trabalho detetivesco ditado pelo paladar ganhar cada vez mais adeptos (são 120 mil seguidores no Instagram). E, o que é mais importante, reconhecimento. 

Este baterista que só queria achar um lugar legal para comer no meio da madrugada, após as apresentações, é o curador da parte gastronômica da Virada Cultural, que, nos próximos dias 20 e 21, terá a participação de 20 estabelecimentos da região central indicados pelo jornalista, como prefere ser definido (“Não sou crítico”, enfatiza). Não faltará lugar para matar a fome, e a um preço bem em conta.

“Acho o Centro fantástico. Descobri coisa para caramba lá”, avisa, com a experiência de já ter falado ou postado sobre – calcula – 700 lugares. Entre eles, desde botecos mais tradicionais até carrinhos de cachorro quente, padarias e mercearias. A entrevista para o Hoje em Dia aconteceu justamente na Mercearia do Nivaldo, no Santa Tereza, do qual ele virou um devoto por conta das almôndegas, carro-chefe da casa.

Fio condutor

Cada vez que Nenel comenta sobre determinado estabelecimento, o assunto não gira em torno de comida, apenas. Com ela, vem a história do local. “Isso tem me importado cada vez mais. Falar da comida como um fio condutor para contar a história daquelas pessoas”, assinala. Por isso, um livro já está nos planos dele. “Tenho muita vontade de lançar um, no formato de guia, mas não dá tempo, pois tenho que pagar minhas contas”.

Ele lembra que, certa vez, uma equipe de estudantes foi até ele para gravar um depoimento e, ao vê-lo pagando por cada prato que consumiu, não escondeu o espanto. “Eu sempre pago, pois quero falar com isenção. Eu me sinto mais à vontade assim. Se não pagar, parece que estou trocando”, explica o aniversariante da próxima quarta-feira. Prestes a completar 37 anos, ele garante que a saúde nunca acusou qualquer problema. 

Se não resulta em dinheiro para o seu editor, o “Baixa Gastronomia” traz benefícios indiretos. Ele já promoveu o próprio festival de comida, participa de programa de rádio e, nas próximas semanas, lançará uma cerveja pilsen com o nome de seu perfil. Fruto, segundo ele, de uma parceria com uma fabricante artesanal de Ipatinga com preço muito atrativo e que chega para “democratizar a coisa da cerveja”.

Nenel observa que estamos em tempos chatos no que diz respeito à liberdade de escolha sobre a breja que devemos tomar. “Hoje as pessoas ficam regrando o que você está bebendo. Deixa o cara beber a Brahma dele! A gente bebe do jeito que quiser, no copo que quiser”, defende. 

 

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O jornalista é curador da parte gastronômica da Virada Cultura, que aconterá no final do mês

 

Antes mesmo de criar o blog “Baixa Gastronomia” você já procurava por botecos diferenciados para comer?

Sempre gostei. Desde quando nasci até os meus 27 anos eu morei em cima de um botequim, na rua Cláudio Manoel, entre Paraíba e Rio Grande do Norte. Ele se chamava Tipiti. Botecão mesmo, com estufa, e meu pai sempre tomava uma cervejinha lá. Na sexta, a minha mãe ia com as amigas e a meninada ficava ali correndo. Ela também pegava marmita. Talvez venha daí a minha paixão por PF. Prato feito de boteco ninguém faz igual. Fico pensando que o boteco sempre fez parte da minha vida. 

E o lado “detetive”? Quando começou?

Mais tarde, como sou músico também, sempre saía para comer de madrugada. Era aquela dificuldade para achar um lugar aberto àquela hora. Em pouco tempo, eu já queria fazer um relato desses lugares e, com o blog, comecei a falar deles sem saber o que iria dar. A ideia era ser um guia. Não sou um crítico de gastronomia, mas sim um jornalista de gastronomia. Nunca quis fazer crítica, mas falar dos lugares que eu gostava, algo bem pessoal. 

Quais são os critérios para merecer um comentário seu na internet?

Primeiro, ser comida boa. Depois, comida farta. Se for boa e farta, já é maravilhoso. E tem a outra parte deste tripé que é o custo/benefício. Temos muitos casos assim. A mercearia do Nivaldo é um deles. Ele tem a melhor almôndega do mundo. E o legal ali que você pode beber apoiado num engradado, ao lado de cachos de banana. Aí você já aproveita para comprar ração para o gato ou cachorro. É uma mercearia à moda antiga.

Como você fica sabendo de um espaço como esse?

Eu saio muito e, se vejo um lugar legal, entro. Também recebo muita indicação no Instagram. Todo dia recebo uma. 

Com o sucesso do “Baixa Gastronomia”, os próprios donos dos estabelecimentos devem lhe procurar. Já aconteceu de algum querer pagar para você escrever?

Já, mas não na lata. Às vezes, falam para ir lá que irão me servir algo... O problema é que, com estes perfis de comida no instagram, acaba rolando um pouco de promiscuidade. Não todos, claro. Tem uma galera que fez só para comer de graça. Os donos me contam que recebem gente assim o dia inteiro, com propostas de parceria... Cada um trabalha do jeito que quer, mas eu prefiro do meu jeito. 

Na época que você criou o blog, já tinha o “Comida di Buteco”, com a ideia semelhante de ressaltar esse tipo de espaço menos glamuroso, não é verdade?

A coisa mais incrível que acho sobre o “Comida di Buteco” é o fato de levar as mulheres para o boteco. O bar sempre foi um ambiente muito machista. Uma mulher que se sentava sozinha numa mesa, a galera já reparava. Agora as mulheres vão mais aos bares do que os homens. Essa democratização é o maior legado do “Comida di Buteco”. Meu trabalho é bem diferente do deles. Por exemplo, no ano passado eu fiz um festival, o “Baixa Gastronomia”, em que não tinha concurso e ninguém era obrigado a criar prato. E não foi só bar e boteco. Entrou carrinho de cachorro quente, lanchonete, mercearia...

Já que você mencionou os carrinhos de cachorro quente, Belo Horizonte tem muitas opções neste segmento?

Não tem. Sempre se resume ao cachorro quente e ao hambúrguer. Os food trucks tiveram aquele boom e agora já são poucos. Tudo ótimo, mas é mais macarrão na chapa. O Netflix tem um série documental, o “Street Food”, que mostra a comida de rua na Ásia. Lá é o paraíso deste tipo de comida. Tem tudo que você possa imaginar. Eu estou fazendo a curadoria para a parte gastronômica da Virada Cultural e fui ver a Feira Hippie, que eu não conhecia, apesar de ser bem perto de casa – acho que é porque acordo tarde no domingo após as biritas de sábado (risos)... Descobri muita coisa legal lá. Tem o acarajé, que é o clássico da feira, mas uma coisa que me chamou a atenção foi a barraca do Alair. Ele vende churrasquinho e o que pouca gente sabe, porque fica num recipiente guardado e quase ninguém vê, é que o Alair também tem uma salada de jiló muito gostosa. É tipo um carpaccio, em que corta o jiló bem fininho e faz uma espécie de conserva com alho, azeite, alcaparra e azeitona. Na feira também tem o cachorro quente do Seu Valdir, em que ele frita um bacon dentro do molho... muito bom! E o engraçado disso é que você seguiu na contramão da preocupação, cada vez mais evidente, com uma comida leve e saudável. Na época em que criei o “Baixa Gastronomia”, estava na moda o Ferran Adriá, várias vezes considerado o melhor chef do mundo, que mexe com a cozinha molecular. Fazia espuma de não sei o quê. Só dava isso na mídia. Aí resolvi que faria uma coisa para o povo, que não come espuma (risos). Era uma época de glamurização da gastronomia, com o pessoal tendo vergonha de falar que comeu um PF ali. 

E atendimento? Este aspecto conta na sua avaliação?

Menos. Eu deveria ser um cara até mais atento a isso, confesso. Não é defendendo o mau atendimento, não, mas o boteco tem as suas limitações. Algumas pessoas vão para um boteco achando que é um restaurante. O cara tem que entender que só há um garçom e o lugar pode estar cheio. Aqui no Nivaldo você mesmo pega a sua cerveja, uma confiança que vem da mercearia à moda antiga. É preciso ter uma certa tolerância.

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