Não serve como receita de bolo, mas deixar de ouvir quem conhece bem a estrada é, no mínimo, ingenuidade. As opiniões são muitas e vêm de vários lugares. De BH a São Paulo. Curioso, no entanto, é que todas convergem para a mesma premissa: para ser DJ de destaque em uma cena cada vez mais concorrida é preciso investir pesado em formação musical.

Um dos principais nomes da música eletrônica no país, o belo-horizontino Nedu Lopes, de 40 anos, explica que, muito mais do que gostar de música, é preciso respeitar a profissão.

“Sim, ser DJ é uma profissão! A dica básica é: escolha sua ferramenta (toca-discos, CD player ou controladora), dedique-se a aprender bem as técnicas de mixagem e mergulhe de cabeça na pesquisa musical. DJ é soma de técnica e repertório”, ensina.

Para ele, a glamouriza-ção da figura do “disc jockey” fez com que a imagem se tornasse mais importante do que o talento. “Hoje, tem muito ‘top DJ’ no mercado que não faz sequer mixagem básica”, protesta Nedu.

ESTILO PRÓPRIO

Referência no mercado, ele admite que está cada vez mais difícil se destacar na profissão, mas aconselha calouros a criar uma identidade própria, seja pela maneira de mixar ou pelo estilo musical que abraça. “O mais importante, sobretudo, é ser original. Não toque as mesmas coisas que todos os outros”.

Com mais de 20 anos dedicados à profissão, Nedu recorda que desde o início da carreira tinha vontade de elaborar canções.

“Quando você se envolve com música, naturalmente passa a ter o desejo de criar o próprio som. Não acho que seja obrigatório um DJ ser também produtor, mas com certeza isso pode ajudá-lo a se tornar mais conhecido no mercado”.

VOZ DA EXPERIÊNCIA

Também nascido na capital mineira, outro nome que faz história nas pistas eletrônicas desde o começo dos anos 1990 é o DJ Robinho.

“Observe os DJs favoritos tocarem. Há uma psicologia oculta nisso: olhar, sentir, pensar em como executar um som e colocar em prática. Tudo é estudar. Fiz isso por muitos anos da minha vida. E, claro, ter paciência é muito bom também. Se for afobado, não adianta. Vai voltar cinco casas no jogo”, garante o DJ de 49 anos. Há cursos profissionalizantes, mas Robinho destaca que muitos DJs experientes se dispõem a repassar técnicas e macetes.

“Só que tem que ser DJ mesmo. Há pessoas que dizem que ensinam, mas na verdade trata-se apenas de um tutorial de apertar os botões. A máquina é quem faz tudo. Desse jeito não existe alma, nem amor. Sempre vai faltar alguma coisa”.

Cuidar da própria imagem é outro ponto importante. “A apresentação, tanto junto ao público quanto nas mídias, deve ser levada em conta”, diz Robinho, que há dois anos aposta em trabalhos autorais e remixes para outros artistas dentro do projeto Shake Machine, uma parceria com Daniel D.

Gustavo Zubreu, de 38 anos, recorda que, como muitos colegas, começou a discotecar em reuniões de família e festas de amigos. Só então percebeu que a brincadeira tinha dado a ele uma profissão nada fácil de seguir, mas completamente apaixonante.

“Uma das coisas mais difíceis é fazer a pista ficar quente a noite inteira. E isso você aprende com o tempo. É testando o repertório, colocando coisa nova. Não há receita exata, porque cada pista é um set distinto”.

Ele afirma, porém, que certas músicas não falham nunca. “‘Fogo e Paixão’, do Wando, por exemplo, sempre bomba. Canções que têm batidas boas viram hit fácil”, assegura.

PISTA ARDENTE

Um dos nomes mais respeitados da cena eletrônica no país, o DJ Patife, de 37 anos, reitera que nem sempre o gosto próprio é levado em consideração.

“Esqueça isso. Tenha carisma, sensibilidade e seja autêntico acima de tudo. É assim que você vai criar o próprio nicho de mercado. Do contrário, a carreira será curta”.

O sucesso do DJ paulistano, segundo o próprio, é sempre associado ao privilégio de estar rodeado de bons parceiros músicos e compositores. “Foi o grande impulso e inspiração para me aventurar nessa área”.

Mirando no mercado internacional, é impossível não lembrar de DJs badaladíssimos, como Steve Aoki, Nicky Romero, David Guetta ou Martin Garrix e Dimitri Vegas & Like Mike.

Para Patife, porém, nenhum deles – e ninguém até hoje – foi capaz de consolidar uma carreira sólida sem levar a sério a boa e velha estrada e os que a percorrem.

“DJ é como qualquer outra profissão. É preciso experiência, bagagem musical, viver diversos eventos, tocar para poucas e muitas pessoas. É importante se qualificar, pesquisar e estudar. Mas, é claro, todos esses conselhos servem só para quem quer ser um DJ de verdade. Para os que só pretender atacar de ‘DJ’, o assunto é outro”.