Março é o ponto zero nas comemorações das oito décadas de Batman, um dos grandes personagens nascidos nos quadrinhos. Para celebrar a data, a editora DC Comics e o estúdio Warner preparam diversos eventos, entre revistinhas inéditas, relançamentos e retrospectiva de filmes.

Apesar de o Homem-Morcego ser um dos mais bem-sucedidos no universo das HQs, o cinema e a TV deram um forte empurrão na marca, principalmente a partir do fim da década de 80, quando o símbolo do Batman passou a estampar roupas, cadernos e merendeiras, por conta do lançamento de filme homônimo. 

Segundo longa baseado no personagem, “Batman” está completando 30 anos e será reexibido, em cópias novas, na próxima semana, nos cinemas da rede Cinemark. Na TV fechada, o canal Warner exibe, dia 30, os filmes “Batman: O Retorno” (1992), “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008) e “Batman vs Superman: a Origem da Justiça” (2016).

Coincidência ou não, o canal escolheu exemplos de três diferentes fases do Homem-Morcego nas telonas, só deixando de fora o filme de 1966, inspirado numa série de TV, e a animação “Batman – A Máscara do Fantasma”, de 1993. Os três momentos são definidos pelos realizadores e por aqueles que vestiram o uniforme. 

Tim Burton é o sinônimo da primeira, formada por quatro títulos lançados nas décadas de 80 e 90, embora só tenha dirigido os dois primeiros. Christopher Nolan é o responsável pela segunda fase, que ressuscitou o personagem numa trilogia apresentada entre 2005 e 2012. A mais recente traz o nome de Zack Snyder em dois filmes.

Expressionismo

Cada uma delas exibe uma abordagem distinta. Burton, apesar da grande expectativa do estúdio, que já queria lançar um filme de Batman desde o sucesso de “Superman” (também pertencente à DC Comics), em 1978, levou para “Batman” e “Batman, o Retorno” elementos expressionistas e do film noir. 

“Batman” será exibido nos dias 26 e 30, às 20h, no Pátio Savassi. Na TV, a Warner programa, também para o dia 30, três filmes de fases diferentes, com “Batman, o Retorno”, às 17h20, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, às 19h40, e “Batman vs Superman”, às 22h30

“Burton tem um olhar muito pessoal, com referências cinematográficas daquilo que ele gostava. Ele aproveita o personagem para fazer um filme dele, entendendo Batman como um personagem deslocado”, observa o fã André Azenha, autor do livro “Batman e Superman no Cinema”.

André lembra que, para a época, o primeiro longa foi considerado soturno, mas em sintonia com o período mais sombrio vivido nos quadrinhos, como “Ano Um” e “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, e “a Piada Mortal”, de Alan Moore, “que foram divisor de águas na história de Batman, mostrando teor bastante adulto”.

O resultado nas bilheterias deu carta branca para Burton fazer o segundo filme, ainda mais expressionista. “A (cidade de) Gotham City ganha elementos góticos, além de o Pinguim remeter ao filme ‘O Gabinete do Dr. Caligari’ (produção de 1920, marco do expressionismo). Max Shreck, ator deste filme, vira nome de um dos vilões”, registra.

A grande polêmica ficou em torno da escolha do ator de comédias Michael Keaton para interpretar Batman, o que gerou uma enxurrada de cartas para a Warner. “Burton queria alguém que se parecesse com uma pessoa normal, como se dissesse que qualquer um podia ser o herói. Hoje muita gente gosta do trabalho do Keaton”, observa Azenha.

Do desastre com Joel Schumacher ao renascimento nas mãos de Christopher Nolan

Com Tim Burton jogado para a cadeira de produtor após “Batman, o Retorno” (o estúdio esperava uma bilheteria ainda maior que a contabilizada), o terceiro e quarto longas, “Batman Eternamente” e “Batman & Robin” respectivamente, tiveram a assinatura de Joel Schumacher, responsável pelos piores momentos do herói no cinema.

"Artisticamente, ‘O Retorno’ foi o mais ambicioso e o melhor resolvido, com todos os vilões bem desenvolvidos. A mudança para Schumacher, que vinha do leve ‘Garotos Perdidos’, significou a vinda de elementos da série dos anos 60, se tornando mais colorido e com situações bizarras”, compara Azenha.

Além de vilões caricatos, o personagem-título ganhou interpretações desastrosas de Val Kilmer, no terceiro filme, e de George Clooney, no quarto. “Eles não estavam nenhum pouco à vontade no papel, tanto que Clooney tem hoje um quadro de ‘Batman & Robin’ na parede do escritório para lembrá-lo que não precisa fazer mais este tipo de filme”.

A franquia entrou em recesso, ressurgindo em 2005 com Christopher Nolan, diretor que vinha de filmes “bastante elogiados pela crítica e de gosto ambicioso, que não prezava pelo convencional”, segundo Azenha. O cineasta buscou se basear nos ingredientes que fizeram de “Superman” um sucesso no final dos anos 70.

“Em ‘Batman Begins’, o primeiro de Nolan, ele pegou um ator como o Christopher Reeve de ‘Superman – Christian Bale não era desconhecido, mas também não era um pop star – e o cercou de atores magníficos, como Morgan Freeman, Gary Oldman e Liam Neeson”, assinala. 

Mas foi em “O Cavaleiro das Trevas” que Nolan fez o que, para o especialista, é a sua obra-prima. “É um trabalho que transcende, em que os opostos (Batman e Coringa) se completam a partir de uma atuação antológica de Heath Ledger como Coringa, que ganharia um Oscar póstumo pelo papel”.

Christian Bale x Ben Affleck: o melhor Batman

Na pele de Christian Bale, Batman ganhou o seu melhor intérprete no cinema, na opinião de muitos fãs. “Ele é o mais completo como ator, tendo mergulhado no personagem. Mas se você olhá-los com o uniforme, Ben Affleck remete mais, por conta do queixo quadrado e do porte físico”, compara André Azenha.

Affleck vestiu a roupa do vingador na fase atual, nos filmes “Batman vs Superman” e “Liga da Justiça” (2017), que representaram outro ponto de baixa do super-herói. Azenha salienta que os fãs ficaram incomodados com a diferença etária de Batman para os companheiros de cena, Superman e Mulher Maravilha.

“Ele parece um veterano, enquanto os outros heróis estão começando, soando um pouco deslocado. O problema principal é ver um Batman esquizofrênico, com características diferentes nos dois filmes, o que desagradou a todo mundo”, lamenta.

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