Em 1928 Oswald de Andrade (1890–1954) lançava ao mundo o Manifesto Antropofágico, conjunto de ideias e pensamentos que veio para provocar a arte e a intelectualidade brasileiras, o que acontece até hoje, quase um século depois. Agora, após um mergulho neste trabalho, a poeta, cantora e compositora Beatriz Azevedo lança “Antropofagia Palimpsesto Selvagem” (Cosac Naify), livro para “(não) incomodar o leitor”, como ela própria define no texto de apresentação. 

Como eles são separados por décadas, a paixão da autora pelo poeta-pensador-filósofo pode soar como amor impossível, mas por obra (ou sorte) do destino tornou-se realidade. Ainda jovem, Beatriz pode conhecer um pouco da intimidade de Oswald em Campinas, onde conheceu a filha dele, Marilia de Andrade – e, de quebra, todo acervo e arquivos originais do artista. Dali em diante, o amor só cresceria.

O livro nasce com honrarias concedidas a poucos: acolhimento da Cosac Naify ( contrato foi assinado sete anos antes da publicação), prefácio do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e ilustrações do artista plástico Tunga, que morreu recentemente.
“Tomara que digam que eu mereci, que não foi sorte de principiante”, brinca Beatriz. Não foi.

Antropofagiando
A paixão levou-a a se aprofundar na obra de Oswald, trazendo à tona a identificação que delineou uma Beatriz artista e outra pesquisadora – ambas reconhecidas internacionalmente. “Fiz todo o meu percurso como artista bebendo desta fonte e também como pesquisadora para alimentar meu trabalho artístico. Deu tudo certo”. 

Beatriz é formada em artes cênicas pela Unicamp, estudou teatro com Zé Celso Martinez, no Teatro Oficina. No livro, analisa cada um dos 50 aforismos trazidos à luz por Oswald de Andrade. Seria esta uma definição simples e sumária, mas a obra de Beatriz vai além: é possível sentir o amor e a dedicação de uma pesquisadora que experimentou a teoria na prática. 

“Se a gente tem no Brasil um dos maiores pensadores do século 20 e não estamos aproveitando isso, 
é uma tristeza”
Beatriz Azevedo 
Sobre Oswald de Andrade

A cada prato do banquete servido por Beatriz (assim o livro se organiza), nos vemos com um apetite ainda maior por um movimento tão na sombra até então, analisado sempre pela mesma luz com a qual se enxerga outro pensamento filosófico qualquer. Um engano. Trata-se do genuíno pensamento brasileiro, formado ainda (ou apenas) no século 20.

“Todo mundo cita a antropofagia como uma grife. O mérito apontado no livro é que pela primeira vez alguém teve o rigor e a paciência para decifrar cada palavra, cada citação. Se ele falou de Nietzsche, vou lê-lo para entender porque ele citou. Ele falou de Freud? Então vou ler Freud. Eu precisava entender”, salienta Beatriz. Para o leitor, prato cheio.

O manifesto

A obra de Oswald de Andrade marcou a geração de artistas contemporâneos dele e muitos outros que surgiram depois, de Zé Celso Martinez a Caetano Veloso, com a Tropicália, e chegando à era digital. Ao lado de Tarsila do Amaral e Raul Bopp, Oswald de Andrade publicou na Revista da Antropofagia o que viria a ser a “síntese” de um pensamento nutrido por ele há anos, consolidando-o em50 aforismos. Propunha, grosso modo, um pensamento genuinamente brasileiro, independente (de fato) e “selvagem”, no que tange à crueza e originalidade do pensamento. Destes aforismos, o mais evidenciado, pelo próprio Oswald, talvez, é a transformação do tabu em totem.

 

Entrevista

De onde veio essa paixão pelo movimento antropófago e quando começou seu estudo?

A primeira coisa que eu li do Oswald de Andrade eu já senti uma vitalidade, um humor, aquilo me atraiu. Li Encanto Radical, um panorama sobre ele. E dei uma sorte histórica: eu sou de São Paulo, mas me mudei para Campinas, e tinha odiado a ideia, mas meus grandes encontros da vida aconteceram ali. Conheci Hilda Hilst, que me empresou livros, me deu acesso à biblioteca dela, e conheci a filha do Oswald de Andrade, Marilia de Andrade. Ela tem filhas contemporâneas minhas, mas elas não se interessavam muito pelo avô, aquela literatura, achavam chato, queriam outra coisa. Ela me adotou, porque eu era tarada aos 13 anos por ele. Ela me deu livros que estavam esgotados, acesso aos originais dele. Muito nova tive um contato profundo e me apaixonei totalmente. Acabei fazendo vestibular para Artes Cênicas e entrando na Unicamp, e durante este período dei outra grande sorte, que foi a família do Oswald de Andrade ter vendido todo o arquivo dele para a Unicamp, onde eu estudava. E o Zé Celso, do Teatro Oficina, vendeu também todo o acervo do Teatro Oficina para lá. Eu estava estudando lá, o Teatro Oficina, o Zé Celso e o Oswald de Andrade lá, aí pensei em começar a estudar isso. Pedi a bolsa, perceberam o potencial, tinham comprado os acervos, e pesquisei in loco nos originais. Fiz todo o meu percurso como artista bebendo desta fonte desde sempre, e como pesquisadora, para alimentar meu trabalho artístico, deu tudo certo. Aí fiz Mestrado, Doutorado, o livro. Nem sei o que farei com isso, mas sou uma artista fruto disso.

Como todo esse universo que você foi beber atingiu seu trabalho artístico?

As linguagens artísticas que eu mais lido são a poesia, o teatro e a música. Então você é permanentemente confrontando com a ideia do país. E tem muito clichê. Eu sempre ia pra fora estudar e o Brasil é um país que as pessoas tem uma ideia pré-concebida. Sempre é bossa nova ou samba. Eu tinha que dançar samba, cantar bossa nova, e jogar futebol. Não. A antropofagia é uma quebra de clichês, um olhar crítico para o próprio país. Ela não quer este clichê, por isso que o Oswaldo fala sempre da transformação permanente do Tabu em Totem. Ele quer um olhar para o Brasil numa perspectiva não colonizada, inferior. Ao contrário, ele falou que faríamos a poesia de exportação. A antropofagia é uma ideia que hoje influencia artistas e pensadores do mundo inteiro. É a única filosofia original do Brasil, como diz o Augusto de Campos. É o mais radical dos movimentos artísticos que a gente teve. Se você pensar que é uma ideia capaz de influenciar o modernismo, a poesia concreta na década de 50, a Tropicália, o Glauber Rocha, o Hélio Oiticica, o Caetano Veloso, o Chico Science, o manguebeat, o Zé Celso, toda a cultura digital do século XXI? É uma ideia muito potente. Ela sempre influencia os grandes movimentos artísticos e contemporâneos, eles vão beber dessa fonte. Então eu sou mais uma grande linhagem de uma tribo de artistas que se alimenta desta matriz.

O seu livro é tido (prefácio) como uma das mais minuciosas aventuras pelo manifesto de Oswald de Andrade. O que você trouxe à luz que ainda não tínhamos? Quais enigmas você descodificou?

Eu agradeço ao Eduardo Viveiros de Castro, porque ele que diz isso. Mas já que ele disse, vou tentar explicar porque, talvez, ele tenha dito. Eu acho que ele disse isso porque todo mundo cita a antropofagia como uma grife. Tudo é antropofágico. A cor dos óculos, o cabelo de dred. Virou uma grife usada, usada sempre, que não diz nada, que foge. Não traduz nada. O mérito apontado no livro é que pela primeira vez alguém teve o rigor e a paciência para decifrar cada palavra, cada citação. São 50 aforismos do manifesto antropófago que em vez de eu fazer um livro sobre o que eu penso, que era um pouco a postura de muita gente, sem olhar pra coisa em si, tudo a partir daquilo eu sou genial e eu inventei isso. O que eu fiz foi o contrário. Eu não sou genial, eu não vou inventar a roda, eu vou olhar pra isso, vou escutar isso, ler e reler isso milhões de vezes. Se ele falou de Nietsche, vou ler ele inteiro pra entender porque ele citou. Ele falou de Freud, totem e tabu? Então vou ler Freud. Eu sou de artes, mas fui estudar antropologia, porque ele falou de antropologia, eu precisava entender. O livro traz isso. O primeiro olhar verdadeiro para o manifesto antropófago. Não acho nada, eu olhei, escutei, li, esmiucei cada um dos aforismos. Quem ler o livro vai poder ter suas reflexões, concordar, discordar. Por isso que ele chama Palimpsesto, que traz essa ideia de várias camadas sobrepostas. A ideia é jogar luz e realmente olhar o manifesto, olhar a filosofia de Oswald de Andrade, porque até então eu sentia muita inconsistência. Ficou na moda ser antropofágico, mas sem consistência, ninguém tinha lido, ninguém pesquisou e quer ser antropófago. É um antídoto contra a banalidade. Até porque eu sou artista, então foi um esforço, porque saí do trono que o artista está de onde ele pode criar o que ele quer, e fui pesquisar, trazer com consistência, sem ser mais uma opinião. Como diz o Guimarães Rosa, “pão ou pães é tudo uma questão de opiniães”. Não estou dando uma opiniães sobre o manifesto.

Pensando na trajetória deste manifesto, como que ele sobrevive neste universo neoliberal, como ele dialoga, como combate, enfrenta?

Um dos aforismos é “a transformação permanente do Tabu em Totem”, do livro de Freud, Totem e Tabu. Tabu é tudo que é proibido, oculto, que fica debaixo do tapete. Não deve falar daquilo. E Oswald propõe o oposto desta postura hipócrita. Tem o tabu? Vamos transformar em totem para que o invisível fique visível. É um gesto de transgressão para jogar luz no tabu. Por isso que ele fica tão atual sempre, porque ele não tem medo de olhar o tabu. Ele não cristaliza as ideias. Ele propõe sempre o questionamento, que você olhe de novo. Antropofagia é riquíssima porque ela sempre pode estar se transformando. Tem a citação que eu uso na conclusão do livro que é “Uma peça permanece não porque ela diga verdades eternas. Uma peça permanece porque pode mudar”. É sensacional. É exatamente isso: um fator de mudanças que faz com que uma coisa fique longeva. É uma filosofia da antropofagia que propõe o oposto do que a civilização ocidental quer que as coisas permaneçam. A antropofagia não quer as definições, não quer a mercadoria, quer sempre a transformação permanente do tabu em totem. Esse movimento constante. É por isso que posso atribuir que uma coisa que vem dos índios de 1500, que se retoma no modernismo, que se retoma no manifesto, depois na poesia concreta, só posso atribuir que é uma ideia capaz de alimentar artistas de diferentes épocas e frentes, lugares diferentes. Elas podem se alimentar da mesma ideia porque elas têm a potência da transformação.

Você cita sempre o aforismo do Tabu e do Totem. Na sua perspectiva de pesquisadora e amante do movimento, do trabalho de Oswald, este é o ponto que mais te atrai?

Me atrai muito este sim, mas pela ideia de criação em movimento permanente. Mas gosto também muito da alegria, ele repete muito este bordão. “A alegria é a prova dos nove”. Porque ele vai beber em Montaigne (filósofo francês), que em seus ensaios fala do encontro dos índios Tupinambás com o rei da corte na França. E neste ensaio, Des Cannibales, Montaigne se perguntou pela primeira vez: quem é bárbaro? Quem é civilizado? Porque chegam os índios pelados, com cocares na França, um país que estava em guerra, morte, guilhotina, o rei, aquela coisa toda. E ele olhou para aquela cena e falou: eu acho que os bárbaros são os europeus. Isso abriu a cabeça do Oswald de Andrade. Então essa ideia da alegria influencia muito Oswald de Andrade, tanto que ele é um cara de muito humor. Amor humor. O valor que ele dá ao amor e humor, ao lúdico. Um cara que apesar de ter criado a única filosofia original do Brasil, nunca perdeu o amor. É um filósofo brasileiro. Se a gente tem no Brasil um dos maiores pensadores do século XX e não estamos aproveitando isso, é uma tristeza. Um bordão é a transformação permanente do Tabu em Totem, o outro é “A Alegria é a prova dos nove”. E outro que eu acho muito importante é o Matriarcado de Pindorama, onde ele diz que o Brasil recebeu o nome de Brasil por causa da exploração do Pau-Brasil, para os índios era Pindorama. O nome então vem da exploração das riquezas. O Brasil é marcado pela chegada dos europeus estuprando as índias, e chegam dizendo em explorar, sugar tudo e mudar o nome. Então Oswald, ao invocar o Matriarcado de Pindorama, faz um chamado desta pátria que a gente tem dentro, mítica, que é antes do Brasil, que é Pindorama, e não Brasil que é fruto de uma exploração. Oswald falando do matriarcado fala que podíamos ser tribais, não precisava ser o pai, a mãe, e sim a tribo, é tudo uma grande família, é o matriarcado. É uma utopia de que o Brasil já era feliz. Vamos a outro bordão, que diz que “antes do Brasil ser descoberto, o Brasil já havia descoberto a felicidade”. Tem outro que fala que “A nossa independência ainda não foi proclamada”, isso é em 1928, e eu me pergunto se hoje ela já foi. São vários bordões (que eu gosto).

Como Oswald chegaria hoje no Brasil e como a realidade de hoje impactaria no trabalho dele?

Ele estaria lutando, participando, ocupando as escolas com os secundaristas. Não ia compactuar com essa hipocrisia toda. Ele é muito radical, ele não queria nem o Estado. Seria um outro tipo de sociedade muito mais livre. Neste sentido, ele estava muito a frente, porque tudo que a internet, uma utopia realizada, você pode compartilhar, comunica com o mundo mais ou menos livremente, isso é um pensamento do Oswald de Andrade. Em 1933 ele publicou Serafim Ponte Grande, e não deixou colocar o “direitos reservados” na capa, ele colocou um “L” no livro, e falou que aquilo era o direito de ser reproduzido, transformado e deformado em todas as línguas. Ele liberava os direitos autorais e conclamava que se deformasse, que se recriasse, em 1933. E agora que começaram com isso na internet, com o Creative Commons, isso é de agora, e ele já fazia isso, era para o mundo devorar. Ele tem esse conceito de que a gente tem que devorar. Por isso que ele é antropofágico.

Para finalizar, fale um pouco gente sobre este trabalho do Tunga, que perdemos recentemente. Como foi o processo de contato dele com a obra, como aconteceu tudo?

Ele conheceu tudo, eu ia na casa dele. É uma honra grande. De qualquer forma, ter o Tunga e o Viveiro de Castro, e a Cosac Naify, quer dizer, diga-me com quem andas e eu te direi quem és, já dizia minha avó, né? (risos) Claro que é uma grande honra, uma grande alegria. O processo com o Tunga foi de encantamento total. Eu cheguei na casa dele, uma amiga me levou. E ele me apontou um quadro, só que tinha um pano transparente jogado em cima, e não me liguei na obra. Quando levantei este pano, eram estes traços superfinos que estão na capa (mostra a capa abrindo o livro na vertical). Eu vi estes desenhos e comecei a decifrar as imagens. São imagens míticas, e me encantou imediatamente. Falei das coisas que eu via, a mulher, o matriarcado de Pindorama, e ele se ligou. Nem sabia que eu estava escrevendo o livro, e dizia: mostra o que você está vendo nestes desenhos! Comecei a falar de tudo que eu estava vendo de imagens míticas, e aí foi por isso. Ele pediu o PDF do livro, eu tenho até trocas de e-mails com ele, ele pedindo, ficou no meu pé, me cobrando. A gente ficou nessa troca, mandei o livro inteiro, primeiro o prefácio, um tira gosto, ver se ele quer o banquete inteiro. Insistiu no livro, eu mandei. E foi natural. Falei que os desenhos casam com a ideia, a coisa mítica, e ele falou: claro! Contatei a Cosac Naify e falei que estava apaixonada por uns desenhos do Tunga, perguntei se rolava para a capa. Eles liberaram, Tunga liberou usar, e acertamos com ele. Uma honra. Quando chegou da gráfica o livro, eu imediatamente falei: manda um pra mim, um pro Tunga, um pro Viveiros de Castro e um pro Zé Celso. O Tunga viu o livro. Foi o primeiro a receber. No dia que ele faleceu eu estava no Rio, pensei ‘cara, o Tunga já viu o livro. Já dei um mês. Vou lá hoje, quero dar um abraço nele’. A tarde eu já soube. Não deu tempo de encontrar com ele com o livro pronto, mas ele participou. Artista generoso. Uma honra.

Um livro que nasce com grandes honrarias...

Nem sei se eu mereço! Tomara que digam que eu mereci, que não foi sorte de principiante. (risos)