Cinco décadas depois, Séverine continua a alimentar o imaginário popular. Esposa dedicada e amorosa, a personagem de “A Bela da Tarde” – filme que será relançado nos cinemas nesta quinta-feira – leva uma vida dupla, passando a ter prazer em ser prostituta e satisfazer as mais estranhas fantasias dos clientes.

Interpretada pela musa francesa Catherine Deneuve, Séverine virou objeto de estudo da psicanálise, em relação à repressão dos desejos femininos. Hoje a mulher está mais “resolvida” com a própria sexualidade, mas o filme de Luis Buñuel chama a atenção por outros motivos, como a crítica à burguesia e a incursão surrealista.

“Revendo os filmes de Buñuel para um curso que ministrei, percebi que em sua obra o sexo sempre aparece associado a uma área arborizada, numa alusão consciente ou inconsciente ao pecado original praticado por Adão e Eva no Jardim do Éden”, observa Luiz Nazario, professor de cinema da Escolas de Belas Artes da UFMG.

Este elemento surrealista surge no sonho masoquista constante da protagonista de “A Bela da Tarde”, no qual se vê amarrada, despida e açoitada num bosque esplêndido. “É uma metáfora recorrente do Jardim do Éden, ilustrando a ideia que Buñuel tem de que o ‘sexo sem religião é como um ovo sem sal’”, registra.

Sonho e realidade
O cineasta exercita no filme uma técnica que, segundo Nazario, levaria à perfeição em “O Discreto Charme da Burguesia”, lançado cinco anos depois. “Ele faz a realidade brotar do sonho, convertendo depois essa realidade num novo sonho, sonhado por outro personagem, como um sonho dentro de outro, de modo que não podemos mais saber se a nova realidade é apenas mais um sonho...”.

A crítica à burguesia surge não apenas a partir da mulher que realiza as próprias fantasias masoquistas traindo o santo marido, mas também numa coleção de clientes burgueses, que desfilam taras no bordel. O professor lembra que, para Buñuel, os “cidadãos de bem” são os sujeitos mais perigosos que existem, pois dissimulam suas perversões com um moralismo militante, conquistando o respeito da sociedade.

Outro ponto de atração é a presença de Catherine Deneuve, que entrou no elenco contra a vontade do realizador. “Ela é um tesouro do cinema. Não há atriz mais maleável, capaz de interpretar as personagens mais extremistas com a inocência de uma criança. Ela nunca evitou as armadilhas de um roteiro que poderiam arruinar sua carreira”, elogia Nazario.

Com a aparência etérea de uma boneca Barbie, na definição do professor, ela mergulhava nos abismos da alma humana sem temer qualquer arranhão em sua imagem angelical. “É impossível imaginar outra atriz protagonizando ‘A Bela da Tarde’”, diz.

 

BELA1

Séverine procura uma cafetina e se oferece para trabalhar de prostituta durante a parte da tarde, na ausência do marido, ganhando o nome de A Bela da Tarde

 

Apesar do empoderamento das mulheres, as Sevérines não deixaram de existir na sociedade

“Até hoje existem muitas Séverines”, alerta Francesca Azzi, um dos nomes à frente da distribuidora mineira Zeta Filmes, responsável pelo relançamento do filme de Buñuel. “Grande parte da população feminina não fala abertamente de sua sexualidade, além de desempenhar um papel de submissão na sociedade”, afirma.

Séverine se desvia da imposição machista de forma clandestina, traindo o marido e, contraditoriamente, amando-o ainda mais cada vez que se deita com outro homem. “Mal ou bem, à maneira dela, Séverine vai atrás daquilo que, inconscientemente, deseja, buscando um prazer que foge do padrão”, salienta.

A psicanalista Regina Navarro Lins, que acaba de lançar o livro “Novas Formas de Amar” (Editora Planeta), observa que, hoje em dia, o “padrão de comportamento aceito” vem cedendo espaço para o diferente. “O amor romântico está saindo de cena. Aquela ideia de casamento, em que um suprirá as necessidades do outro, está dando lugar a outras formas de amar”, diz Regina. Ela destaca, porém, que o caso de Séverine não representa, necessariamente, a mentalidade da mulher da época. “Grande parte não ia para a prostituição para viver sua fantasia”.

Vida dupla
A psicóloga Janaina Shirazawa recebe em seu consultório mulheres que ainda temem pelo julgamento que receberão da sociedade ao tentarem satisfazer os seus desejos. “Elas temem se a sociedade vai compreender as suas vontades, o que acaba gerando sofrimento. É o caso de Séverine, que não consegue ter uma vida integrada”, analisa.

O resultado é a criação de duas vidas: uma em que é socialmente aceita e outra em que seus desejos são satisfeitos, embora à mercê da sociedade. “A satisfação dos desejos poderia ser junto com o marido, por exemplo. Não é preciso sair de uma relação. Muito pelo contrário”, assinala a psicóloga.

Janaína observa que as mulheres hoje estão mais autênticas com seus desejos, mas sofrem as cobranças de uma sociedade patriarcal. “Ainda passam para elas que, o que sentem, é errado, é pecado. Isso se manifesta já quando elas são crianças, quando descobrem o prazer. Não é a sexualidade em si, do adulto, mas elas descobrem uma região de prazer. E o que os adultos fazem? Pedem para ela tirar a mão dali”, pondera.