Às 7h40, os primeiros visitantes da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa já esperam as faxineiras darem os últimos retoques na limpeza antes de a porta de vidro do local se abrir, às 8 horas. Mesmo em tempos de internet isso ainda acontece. Eles estão interessados nas notícias do dia na sala de periódicos. E hoje, no dia do aniversário de 60 anos da mais importante biblioteca de Minas Gerais, certamente não será diferente.

E leitor que se preza não gosta de ser incomodado. E assim será. Respeita-se. Silêncio. Pisando macio no chão. Biblioteca é lugar onde delicadeza do corpo tem a primazia – seja na voz, no andar e até no tocar, caso da servente Maria de Lourdes Pereira.

Há nove anos ela faz a limpeza do Acervo de Coleções Especiais. Detalhe: só a ela essa missão é delegada. Imagine a situação. Livros dos anos 1.400, 1.600, em latim, francês e alemão antigos, com desenhos feitos à mão em ouro... “Mas são os meus bebês”, define Lourdes.

Aos 57 anos, a responsável pela “maternidade literária” sabe lidar bem com os “pequenos velhinhos”. “Não posso puxar pela lombada, senão pode rasgar. Empurro de trás para frente e apoio a mão embaixo”, explica. E tudo com luvas e máscara. “É isso que me encanta neles, quando estou limpando. Quantas pessoas já pegaram nessas páginas. Não é pelo conteúdo, é pela idade”, explica Maria de Lourdes.

A servente precisou fazer curso com restauradores para lidar com os “bebês” centenários. “Aqui é o coração da biblioteca”, defende, enquanto empurra o aspirador de pó para limpar as raridades. “Outro dia, veio um tatuador de São Paulo, aqui, querendo ver ilustrações do Gustave Doré (ilustrador francês, 1832-1883)”, lembra a bibliotecária bolsista Valéria Rezende da Silva.

O leitor “forasteiro” era Guilherme Hass, 24 anos, tatuador e designer em Bauru (SP). “A biblioteca, não conhecia, fui trabalhar na cidade e dei uma volta no Circuito (Cultural Praça da Liberdade). Estudo Doré há um tempo. Os livros da biblioteca são raros (anos 1870) e em proporções maiores. Na internet tem parte da imagem, não é a mesma coisa que na proporção real. E tem todo um trabalho de capa. O que importa é o objeto”.

Atrás das paredes de vidro da ‘Luiz de Bessa’ há leituras em todos os tons

A biblioteca é “pública”. O nome já diz. De intelectuais a moradores de rua, todos têm vez diante dos livros – ou das revistinhas. “Não sei ler. Gosto de ‘ver’ as revistinhas. A Mônica existiu mesmo? E o porque o Cascão não gosta de tomar banho?”. Jocilaine da Silva Oliveira, 23 anos, pergunta, pergunta e ri muito, “vendo” as aventuras da turma mais famosa dos quadrinhos brasileiros.

Ela diz que sempre vai até a sala de livros infantis da Luiz de Bessa. “Nas imagens, dá ‘pra’ rir ‘pra’ caramba”, garante a jovem, mãe de seis filhos, todos morando com uma tia dela, na região da Barragem Santa Lúcia. “E é tão linda a Mônica Jovem... Será que ela é assim mesmo, de verdade?”.

Outras leituras

As possibilidades de leituras atrás das paredes de vidro da instituição são variadas. No início da tarde, chega à biblioteca um senhor grisalho, carregando uma pasta e com ares de professor. O servidor federal aposentado, Ronaldo Toledo, 61 anos, vai ler livros e ensinar matemática para os portadores de limitação visual do Setor de Braille, que existe desde 1965.

O voluntário chegou à atividade filantrópica depois de uma conjuntivite meio brava, em 2009, ainda em São Paulo, sua cidade de origem. Foram seis meses de tratamento. Depois, viu um anúncio em uma instituição voltada para os cegos e resolveu oferecer os préstimos como conferente de textos.

Em BH, depois do divórcio, quis continuar o trabalho. “Uma vez, li um livro, em inglês, para um advogado com baixa visão. Ele perguntou se eu era fluente. Disse que não. Mas que sabia ler no idioma”.

Ampliando a casa

Até 2015, outras leituras devem ser incluídas às atividades da Luiz de Bessa. Neste semestre, edital vencido na Fundação Biblioteca Nacional garante capacitação técnica para que a instituição mineira passe a estimular a leitura e a cultura para surdos, pessoas com problemas de locomoção e deficiência intelectual, entre outras.

Aulas, revistinhas, convivência. O fato é que o ambiente de biblioteca vem deixando de ser apenas um estoque para livros. “Intensificamos a atuação como centro cultural”, resume a Superintendente de Bibliotecas Públicas e Suplemento Literário, Catiara Afonso.

Algo bem diferente do que acontecia nos anos 1950, quando a instituição foi fundada e ainda se chamava “Biblioteca Pública de Minas Gerais”, num andar da rua Saturnino de Brito, Centro, com acervo de 22 mil volumes – hoje, são quase 260 mil.

Quem se lembra desse tempo é o professor Paulo da Terra Caldeira, da Escola de Ciência da Informação da UFMG. Desembarcando em BH nos anos 1950, vindo de Resplendor, na região do Vale do Rio Doce, para estudar, ele via a biblioteca como um “novo mundo” no qual se inspirou para se tornar bibliotecário. “Belo Horizonte era como Paris ou Nova York para mim. A minha cidade tinha três ruas”, brinca o intelectual que garante ainda frequentar o espaço.
Assim, desde a sede da rua Saturnino de Brito, Caldeira já carregava a inspiração para a profissão. “Via o diretor, um senhor elegante, sempre de gravata borboleta. Na minha concepção, estava estudando, mas soube que era o professor Eduardo Frieiro. Eu pensava: ‘Que bom trabalhar em um lugar em que podemos ler’. E assim, continuei”. Eduardo Frieiro comandou a Luiz de Bessa da inauguração até 1963.