Naquele 5 de novembro de 2015, o capitão Leonard Farah, comandante da Companhia Operacional de Busca e Salvamento do Corpo de Bombeiros, estava no quartel, em Belo Horizonte, quando foi informado de que a barragem do Fundão, em Mariana, tinha rompido.
 
“Imaginávamos que haveria problemas de acesso ao local e fomos de helicóptero. Quando chegamos ao distrito de Bento Rodrigues, a área já estava destruída e havia pessoas acenando para nós descermos e ajudarmos. Mas resolvemos seguir o fluxo do rio de lama e ir um pouco mais à frente, para Paracatu de Baixo”, registra Farah.
 
bombeiro

Capitão Leonard Farah conta pela primeira vez fatos que marcaram as primeiras horas de salvamento após rompimento da barragem, em 2015

 
Esta decisão de não permanecer em Bento Rodrigues, tomada em frações de segundos, salvou vidas. Um capítulo pouco conhecido da tragédia ocorrida em Mariana que agora vem à tona no livro “Além da Lama” (editora Vestígio), que será lançado amanhã (5) no projeto “Sempre um Papo”, no auditório da Faculdade de Direito da UFMG. “Não se fala muito em Paracatu de Baixo porque ninguém morreu lá. Se não tivéssemos descido e levado as pessoas para o alto de um cemitério, teria havido mais mortes”, frisa Farah.
 
A publicação se concentra justamente nas primeiras 15 horas da ação dos Bombeiros, cuja frieza para a escolha das melhores decisões foi determinante.
 
“Se fôssemos levados pela emoção, teríamos ficado em Bento Rodrigues”, salienta o capitão, que ainda conviveu com a possibilidade de rompimento de outra barragem próxima, dez vezes maior que a do Fundão, tendo que promover a rápida retirada de todas as pessoas da região, contando apenas com uma escavadeira para abrir caminho na terra.
 
Especialista em prevenção de catástrofes, com vários cursos do exterior, Farah não tem dúvidas de que o Corpo de Bombeiros mineiro é uma referência mundial. E é a este profissional que ele dedica uma parte do livro, retratando o seu dia a dia. 
 
“É uma atividade nobre, dedicada aos outros. Tudo o que a gente passa, como frio, sono e fome, não é por nós, mas para outras pessoas. Muita gente não tem noção do que a gente passa”, destaca o capitão, que só voltou para casa depois de sete dias do rompimento em Mariana. 
 
Farah também trabalhou na tragédia em Brumadinho, em janeiro deste ano. “Estava de férias, de pé quebrado. Uma aeronave parou ao lado de minha casa e fui para lá”, relata o incansável capitão, conhecido por sua severidade nos treinamentos. “A gente não pensa que irá ocorrer de novo, mas temos que estar preparados”.