O cinema se fartou de usar a culinária como metáfora para uma transformação existencial, mas o caso de “Pegando Fogo”, disponível no Telecine Play, é um pouco diferente, pois ser um exímio chef não representa a redenção, como um guru de estômagos satisfeitos.

Protagonizado por Bradley Cooper, o filme aborda esse universo da gastronomia estabelecendo relações com o showbizz, em que o sucesso pode ser indigesto. Adam Jones não suportou a pressão de ser o melhor e caiu de boca nas drogas e badalações, como um Don Juan de avental.

Encontramos o personagem um pouco depois, após fugir de Paris, endividado e surtado, e de se penitenciar ao abrir um milhão de ostras num restaurante americano. É como se fosse relógio para iniciar o seu retorno às boquetas, ainda sem abandonar a sua arrogância.

O cozinheiro revê um amigo que foi traído por ele, assim como alguns de seus ajudantes, igualmente prejudicados pelas loucuras do passado. Seria uma história sobre “segunda chance”, como o cinema americano gosta de fazer, mas a verdade é que o personagem não é totalmente contestado.

O fato é que Hollywood tem uma veneração por esses “loucos que fazem”. O que fica evidente num diálogo do protagonista com um adversário das cozinhas requintadas, para quem Adam é importante por não deixar ninguém confortável e buscar o aprimoramento constante.

Quem deve mudar, na verdade, são os outros, aceitando o trabalho árduo (premissa básica do capitalismo) e se sujeitando aos xingo do chef. Em troca também, poderão ser algum dia ter seu próprio restaurante, seguindo um princípio hierárquico quase militar.

No filme, não há outra escolha. Para ser o melhor, é preciso de um bocado de dor, já que a perfeição é para poucos. Apesar dessa ideia distorcida, a narrativa se desenvolve bem dentro do que propõe. Bradley Cooper faz um chef próximo de outros de seus personagens, à beira da loucura.

O espectador se deixa cativar, até porque o melhor de Adam é bom para quem está à mesa, à espera de um prato feito com esmero.