Não é sem motivo que nessa sexta-feira (25), Dia do Escritor, amanheceu, frio, chuvoso e fúnebre. Julho está sendo terrível para a cultura brasileira. Desde o início do mês, o país perdeu quatro de seus maiores autores e pensadores. 
 
No dia 3, morreu o poeta e crítico Ivan Junqueira, aos 79 anos; no dia 18, o romancista João Ubaldo Ribeiro, aos 73 anos; um dia depois, o escritor e teólogo progressista Rubem Alves, aos 80 anos; e, por último, o autor teatral Ariano Suassuna, no dia 23, aos 87 anos. 
 
As notícias das mortes vieram nessa sucessão maluca, sobrepondo tristezas, sem deixar tempo para que nos refizéssemos da perda anterior. Com os amigos, mesmo no ambiente festivo do bar, o papo durante o mês teve um quê de velório: “Você soube? Pois é... logo ele...”.
 
Morte de escritor querido é quase tão sentida quanto morte de parente. Mas, com a diferença de que destes ficam como lembranças as fotografias, e daqueles podemos revisitar a obra e o pensamento. Algum consolo, se este é possível, conseguimos em duas passagens de Suassuna nas quais, com humor iluminado, ele aborda o mistério e o terror da morte. 
 
O lamento de Chicó pela morte de João Grilo, no “Auto da Compadecida”, é delicioso. Popular e profundo, como sempre buscou o autor paraibano.
 
“João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Tão amarelo, tão safado e morrer assim! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma”.
 
A outra, na verdade, é uma brincadeira feita por Suassuna com a própria morte, na sua última aula espetáculo, dia 18 deste mês, durante o Festival de Inverno de Garanhuns, Pernambuco: “Na minha terra, o Sertão da Paraíba, a morte é uma mulher. E tem nome. Ela se chama Caetana. Aliás, esse é o único jeito de eu aceitar essa maldita. Se ela vier como uma mulher, bonita e carinhosa”.
 
Para aqueles que não professam fé, a morte é realmente uma maldita. Menos pior, talvez, para um Rubem Alves, que tem obra marcada por buscas existenciais e espirituais. 
 
Independentemente de religião, para os quatro escritores mortos, quem sabe, a passagem estará sendo tão bonita quanto a ilustração ao lado, do pernambucano Romero de Andrade Lima, sobrinho de Suassuna, feita para a última edição do “Auto da Compadecida”. Um céu nordestino, alegre, colorido e iluminado.