Não é preciso muito para se fazer um show perfeito. Bastaram dois violões e um cenário simples –  mas bonito e que dá bem o recado – para que Caetano Veloso e Gilberto Gil pudessem emocionar milhares de pessoas que lotaram o Chevrolet Hall na noite de sábado (26). No repertório da turnê “Dois Amigos, Um Século de Música”, grandes sucessos que ganharam coro da plateia – como “Sampa”, “Esotérico” e “Expresso 2222” – e outras mais contemplativas, como “Tonada de Luna Ilena” e “Come Prima”.

A Bahia foi a grande homenageada da turnê, sendo reverenciada em muitas canções, especialmente as compostas por Gil – “Toda Menina Baiana”, “Back in Bahia”, “Em Vim da Bahia”, “Filhos de Gandhi” – e numa referência a “Avisa Lá”, do Olodum. O Estado natal dos mestres também foi lembrado com “A Luz de Tieta”, uma canção que Caetano sempre faz questão de lembrar em seus shows.

“Tieta” fez parte do primeiro bis da apresentação, que foi iniciado com o já esperado “Desde que o Samba É Samba” e com a obra-prima máxima de Gil, “Domingo no Parque”. Para um maior êxtase do público, houve ainda um segundo bis, com “O Leãozinho” e “Three Little Birds”, fechando o show com exatas duas horas de belíssimas canções.

A proposta da turnê é de uma divisão igualitária de destaques entre os amigos baianos, mas na apresentação do Chevrolet Hall foi perceptível que Caetano aparece mais. Foi o dono da voz da maior parte do repertório, especialmente na primeira fase do show. Também foi quem angariou o maior número de gritos de “lindo” que saiam da plateia a todo momento.

Gil parecia menos solto e à vontade do que nas apresentações em que é o único centro das atenções, porém isso não diminui sua incrível capacidade de levantar o público. Não à toa suas composições mais empolgantes e que prestam convite ao “cantar junto” ficaram para o final.
 

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E o público reclamou

Quando se anunciou que o show da turnê seria no Chevrolet Hall, muita gente reclamou nas redes sociais da escolha do local, por conta da acústica do ginásio dos maristas. Mas os técnicos de som capricharam e era possível ouvir bem todas as palavras entoadas por Caetano e Gil até mesmo nos setores mais ao fundo do lugar, principalmente porque o volume do som foi cuidadosamente dosado.

Mas nem sempre era possível ouvir bem a dupla, por conta da própria plateia. Foi complicado tentar se concentrar na apresentação com tanto falatório no entorno. Boa parte do público se comportou como se estivesse em o show d'O Rappa ou de qualquer outra banda de rock, exibindo uma maior preocupação em tomar cerveja e bagunçar com os amigos, do que em apreciar o show.

Este era um show para teatro não porque o Chevrolet Hall não fosse capaz de oferecer estrutura para voz e violão, mas por ser uma apresentação que pede um público de teatro, pede para ser apreciado por quem se sentisse constrangido em incomodar a quem está ao lado. É um show que pede contemplação, até mesmo por aqueles que conhecem Caetano por “O Leãozinho” ou Gil por “Esotérico”.  

No momento da belíssima “Eu Tenho Medo da Morte”, a falta de educação de muitos ficou ainda mais evidente. Enquanto Gil cantava em tom baixo, acompanhado apenas por batidas secas no corpo de seu violão, era possível se ouvir o embate entre os que ridicularizavam uma obra genial (que pede ouvidos atentos e sensibilidade) com os que faziam fortes “shhhhhhhh”.

No fim das contas, barulhentos e contra-barulhentos se sobressaíam sobre o artista. Lamentável que o desrespeito esteja sendo uma máxima na atualidade, até mesmo nos momentos de celebração.

 

Confira a galeria do show (Crédito: Flávio Tavares/Hoje em Dia):