BRASÍLIA – O filme “Café com Canela” chama a atenção para uma produção cinematográfica que começa a brotar no Recôncavo Baiano, em especial na região de Cachoeira, locação e “personagem” da narrativa, como frisa a dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio, diretores do longa-metragem apresentado na noite de segunda-feira no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

“A cidade é um elemento da narrativa, da linguagem. Tudo foi pensado para Cachoeira. Não por acaso que fizemos esse movimento de agregá-la ao filme”, observa Rosa, que descarta qualquer possibilidade de recorrer a outros centros do país – até mesmo a capital Salvador – para dar continuidade à sua produção. “Ficar em Cachoeira é meu plano A, B, C, D, E, F...”, avisa.

Tanto é assim que Rosa e Nicácio já estão filmando o segundo longa, intitulado “Ilha”, processo que só foi interrompido para que pudessem estar em Brasília. “Quero focar minha carreira em onde vivo. Quero fincar o meu pezinho e pedir licença para passar”, assinala Nicácio, que fundou uma produtora em 2011, ao lado do colega de direção.

Por suas características que enaltecem a cultura local, misturada a uma narrativa popular, “Café com Canela” foi muito bem recebido pelo público sempre exigente do festival. “Ser cineasta não é profissão. Cineasta é o que eu sou. Quando faço filmes, tem que ser legal para min e para as pessoas”, registra Nicácio.

A participação da cidade pode ser medida na construção de uma casa para a personagem Margarida (Valdinéia Soriano), que vive isolada pela dor da perda do filho e ganha conforto na amizade com Violeta (Aline Brunne). A produção preferiu convidar cenógrafos de Salvador para dar uma oficina e proporcionar que pessoas da comunidade participassem do processo.

“Só o fato de dona Anita (uma figura conhecida da região) se segurar para não olhar para a câmera já foi maravilhoso”, orgulha-se Rosa, que também buscou na cidade uma parte de seu elenco. Uma exceção é o carioca Babu Santana, que acabou descobrindo suas raízes baianas por acaso, durante a produção do filme.

“Foi muito engraçado isso porque ele, logo no primeiro dia, já topou com um tio que ele achava morto, mas que havia saído do Rio e ido morar em Cachoeira. O que mostra que, realmente, as pessoas não vão para Cachoeira por acasa. Ela os chama”, destaca Rosa, que definiu a escalação após ver uma entrevista de Babu para Marília Gabriela.

“Ele geralmente faz personagens de traficante ou bandido e Marília Gabriela o perguntou o que gostaria de fazer. Babu respondeu que gostaria de fazer um gay, exatamente o papel que precisávamos”, destaca Rosa, que, ao lado de Nicácio, lavou a alma de muitos espectadores do festival após a exibição, no sábado, de “Vazante”, considerado racista.

 

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Brasília