BRASÍLIA - Antes de Camila Morgado iniciar a entrevista para o Hoje em Dia, a produtora Lucy Barreto dá um abraço na atriz e ouve que seria "um sonho trabalha com você". Lucy assinou alguns dos filmes mais importantes do Brasil nos anos 70 e 80, como "Dona Flor e Seus Dois Maridos", além de dois indicados ao Oscar ("O Quatrilho" e "O que é Isso, Companheiro?"). Diante do inusitado convite, a Camila só restou dizer "É só chamar!".
 
O repórter pergunta se ela já tinha recebido esse tipo de abordagem para um trabalho futuro. "Não! Ainda mais vindo dela!", registra Camila, pouco depois de participar da entrevista coletiva do filme "Domingo", que abriu o Festival de Brasília no Cinema Brasileiro, na noite de sexta-feira, no Cine Brasília. "Uma surpresa. Notícia boa para começar o dia", anima-se a professora Gabriela da novela "Malhação".
 
Já aconteceram casos em que o caminho foi o inverso, com a atriz não vendo a hora de trabalhar em projetos de um determinado cineasta. Com Felipe Gamarano Barbosa, que dirige "Domingo" ao lado de Clara Linhart, foi assim. "Admirava os trabalhos dele e antes conheci, na série 'O Rebu', o roteirista Lucas Paraíso. Viramos amigos. Queria trabalhar com eles e acabou acontecendo", registra.
 
Numa típica reunião familiar, Camila interpreta Beth, a esposa de um dos filhos de Íttala Nandi, a matriarca que estampa o tradicionalismo numa época de grande transformação e esperança no país, na eleição de Lula para presidente, em 2003. "Ela não é bem-vinda na família; ela tranforma aquele ambiente. Adorei fazê-la", observa Camila, que filmou na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul.
 
"Quando (as filmagens) terminaram, ficamos com muita saudade. Ficamos todos em Pelotas, tentando chegar o mais próximo da realidade. E o ambiente foi criado para a gente poder ficar à vontade. Não existiam apenas atores. Nós éramos autores também. Numa determinada cena, eu a fiz 17 vezes, como se fossem ensaios para tentar construir outra proposta. O processo coletivo foi muito gostoso", relata.
 
Na TV, Camila dá vida à professora Gabriela em "Malhação: Vidas Brasileiras", papel que a atriz vem gostado de fazer. "É uma professora que quer saber como o aluno está, a razão de não estar rendendo, fazendo parte real da vida daquelas pessoas. Além de tudo, é apaixonada por literatura, o que vem bem calhar neste momento do país. Sem falar que a profissão vem sendo muito desmerecida".
 
Para Camila, o que chama a atenção na personagem é ser adepta de uma educação inclusiva, levando para a sala de aula a questão do gênero, da descoberta sexual e do assédio. "Tennho muito orgulho de estar ali, falando sobre esses temas para os jovens", completa Camila, que também está em cartaz nos cinemas com "Animal Cordial", de Gabriela Amaral Almeida.
 
"A Gabriela tem um processo de ensaio diferente do Felipe e da Clara, muito intenso, buscando tirar o ator da zona de conforto. O que é ótimo para a gente, nos levando a uma boa reciclada, colocando-se em outros lugares", compara. Em novembro, entrarão em cartaz "Vergel",  de Kris Niklison, e "Albatroz", de Daniel Augusto. "Cinema tem essa coisa. Você vai fazendo e eles, por coincidência, acabam estreando juntos".
 
(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Brasília