“Sente-se diante da vitrola. E esqueça-se das vicissitudes da vida”. O conselho vem do texto de “Música de Manivela”, do poeta modernista Oswald de Andrade. Trata-se de um dos 12 poemas musicados por Juliana Perdigão em seu novo álbum, o recém-lançado “Folhuda”. 

No terceiro disco, a cantora, instrumentista e compositora mineira também transpõe para a linguagem musical versos de Paulo Leminski, Murilo Mendes, Renato Negrão, Fabrício Corsaletti e Angélica Freitas.

Perdigão conta que “Folhuda” surgiu do convite de outro mineiro radicado em São Paulo, o saxofonista Thiago França, que assina a produção musical do álbum. “O Thiago fez uma proposta para produzir quatro discos no Red Bull Station, e um deles foi o meu. Quando começamos a conversar, mostrei a ele algumas composições que eu tinha feito sozinha, musicando poemas, sem muito rumo”, conta a artista, que reside na capital paulista há seis anos, desde quando foi trabalhar no Teatro Oficina, com José Celso Martinez Corrêa. 

Diante de seis poemas musicados, a dupla percebeu que já tinha em mãos um primeiro escopo do disco, que completou-se com outras seis canções. “São poemas que musiquei a partir do desejo de dar um mergulho maior na experiência de compor canções. Peguei alguns livros da minha estante e fui selecionando poemas que eu achava que tinham a ver”, explica. 

Percepção

“Para transformar os poemas em canção, você tem que ouvir a música que está neles. A música da melodia, da prosódia, o ritmo que cada poema traz. Então, de certa forma, eu fui guiada pelos próprios poemas”, expõe a artista. “‘Música de Manivela’, por exemplo, virou um reggae porque a própria letra traz este clima”, completa.

Assim, o disco ganhou uma sonoridade diversa, que transita por ambientes musicais do rock ao brega, passando pelo samba e o blues. “É um disco com canções mais simples, gravado em quatro dias”, afirma Perdigão, que tocou clarinete, flauta, guitarra e violão. 

“Apesar de serem de estilos diferentes, como eu compus todas as músicas isso cria uma unidade. É bem diferente do ‘Ó’, em que cada faixa era de um autor”, observa Perdigão, traçando diferenças com relação ao disco de 2016. 

Parcerias

Outra característica de “Folhuda” são as parcerias musicais com nomes como Ava Rocha, Tulipa Ruiz e Iara Rennó (que gravaram os coros), Arnaldo Antunes, Lucas Santtana e, claro, Thiago França. 

“Tive a alegria de ter comigo gente que eu gosto muito, pessoal e artisticamente”, sublinha a artista, ressaltando a importância dos Kurva, banda que a acompanha há cinco anos. 

Perdigão comenta, também, o indissociável componente político que os temas trazem, principalmente quanto à questão da mulher. “A convivência com a Angélica Freitas, que é minha companheira e uma artista maravilhosa, que eu admiro muito, também trouxe muito esse assunto para o trabalho. Ela pensa muito sobre os enfrentamentos e questões que temos que lidar por termos nascido mulheres”, diz. 

“Acredito que a política não é algo dissociado nem da vida nem da arte”, finaliza, citando a canção “Noturno, O Violeiro”, também criada a partir de poemas de Oswald de Andrade: “Lá fora o luar continua e o trem divide o Brasil como um meridiano”.

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