Um pas de deux do espetáculo “Lecuona”, criação do grupo de dança mineiro Corpo, foi filmado por Bárbara Paz para entrar no final do documentário “Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, como uma forma de ilustrar as predileções do cineasta Hector Babenco, falecido em 2016.

“Eu filmei tudo o que o Hector mais amava na vida, mas a sequência de ‘Lecuona’, que ele achou uma das coisas mais lindas que já tinha visto, acabou não entrando porque o filme estava com muitos finais”, revela Bárbara, viúva de Babenco, a uma semana da estreia do documentário nas salas de cinema.

Apesar de a cena com grupo o Corpo não ter passado da sala de montagem, “Babenco” respira mineiridade. Para mostrar uma orquestra em ação, outra paixão do realizador de “O Beijo da Mulher Aranha”, Bárbara escolheu a Orquestra de Ouro Preto, filmando na cidade histórica. Mas não ficou só nisso.

Ela veio a Belo Horizonte diversas vezes para trabalhar na edição do filme ao lado de Cao Guimarães, diretor de documentários poéticos premiados. “A gente foi trabalhando junto a sutileza. Sempre enxerguei o filme como um poema visual. O Cao, como artista que é, sacou na hora”, afirma.

Além de Cao, “Babenco” contou ainda com a “parceira de escuta” Petra Costa, diretora de “Democracia em Vertigem”, documentário indicado ao Oscar da categoria. “Petra é minha amiga há bastante tempo. Conversei muito com ela sobre o fazer documentário não convencional, que ela estava acostumada a fazer”.

Quem assina a trilha sonora é o duo O Grivo, sugestão de Cao Guimarães. “Eles chegaram para não sair mais da minha vida, porque são incríveis”, elogia. Bárbara é categórica: “Minas nunca mais sairá de mim”, ao citar um de seus próximos trabalhos – um cine-teatro filmado na Casa da Ópera, em Ouro Preto, com o título “Ato”.

A ideia do filme partiu de Bárbara, num leito de hospital, ambiente que Babenco frequentou por 32 anos, desde quando descobriu que estava com um câncer linfático. “Eu estava com medo de que não houvesse mais tempo para registrar este homem, este pensador, este leão, esta pessoa que eu estava enxergando e que queria que todo mundo enxergasse”.

O realizador, nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, foi o maior estimulador para que a esposa assinasse o filme sobre ele. “A gente foi se amando e construindo obras juntos. O filme acabou sendo a junção de tudo, o fechamento deste casamento, desta história de amizade e de encontro mesmo nas artes. Era um cara que gostava muito do meu olhar, de como eu enxergava o cinema”, assinala.