Por mais que os quatro roteiristas de “Carcereiros – O Filme”, outra estreia de hoje nos cinemas, tentassem aproximar essa história à de “Assalto a 13ª DP”, produção americana de John Carpenter em que prisioneiros e policiais tinham que unir forças numa noite em que a delegacia é invadida, o diretor José Eduardo Belmonte foi atrás de outras referências no quesito ação, especialmente fora de Hollywood.

“Eu vi essa referência (ao filme de Carpenter) no roteiro, mas confesso que não fui para este lugar. Fui para o lado do cinema oriental, como o chinês e o coreano, em especial a obra de Johnnie To. É outro tipo de ação. Em ‘A Vilã’ (do sul-coreano Byeong-gil Jeong), usam uma câmera GoPro (voltada para filmagem de esportes radicais) nas mãos, oferecendo uma imagem nervosa. É isso que busquei acrescentar”, registra.

O filme traz o mesmo núcleo da série baseada no livro homônimo de Drauzio Varella e lançada pela Globoplay em 2017 e acompanha o dia a dia de um carcereiro (Rodrigo Lombardi). Não é preciso ter visto as duas temporadas para compreender a trama do longa-metragem, que transcorre durante uma noite (assim como “Assalto a 13ª DP”) em que o presídio é inesperadamente invadido.

Indagado se já havia o desejo de fazer um filme quando a série foi criada, Belmonte destaca que “Carcereiros” é um projeto com várias ramificações, lembrando que o livro de Varella também se desdobrou num documentário. “A gente tem visto este cruzamento entre televisão e cinema, principalmente com Guel Arraes, que fez ‘O Auto da Compadecida’ para os dois formatos. A ideia é muito interessante”.

Ele deduz que os roteiristas tiveram duas questões ao proporem o filme. “A primeira é que, para não fazerem um episódio alongado da série, intensificaram algumas questões. Além de uma quantidade de ação maior, buscaram uma história arrojada e, segundo um deles, que beirasse ao surreal”, analisa.

O longa estabelece relações com o conturbado momento político do país. “Traz um pouco de alegoria sobre o que está se vivendo hoje, num estado delirante, de polarizações, a parti do ponto de vista de um carcereiro que passa a ser um juiz nesta situação. Mas não é filme discursivo”.