Ao ser presa e conviver com assassinos e estupradores na mesma cela, uma “pessoa normal” talvez seria tomada por um medo constante. Não foi o caso de Frei Betto, frade dominicano que, após participar da resistência à ditadura e ir para trás das grades, enxergou uma oportunidade de crescimento espiritual.

“Esperava-se que não fosse se aproximar daquelas pessoas. Mas acontece o contrário, num exercício de alteridade muito profundo. Frei Betto começa a entendê-las e não julgá-las”, observa o professor Emerson Carvalho, que estudou as cartas do religioso enviadas da prisão durante o curso de graduação na PUC-Minas.

A análise desta correspondência é o combustível de palestra que o professor ministrará em vídeo a ser disponibilizado amanhã, no site da Academia Mineira de Letras. “A partir destas cartas, acompanhamos a transmutação de seu estar na prisão e a percepção do que é a prisão ao longo de todo encarceramento”.

Carvalho registra o início na prisão, em 1969, de um sujeito que se porta mais revoltado e que vê o cárcere como o esgoto da sociedade. Mais tarde, o frei irá visualizar, de acordo com o professor, uma transformação pessoal, enquanto sujeito religioso. “Ele passa a ver na prisão uma oportunidade de remissão pela fé”, analisa.

O palestrante conta que a realidade encontrada por Frei Betto em presídios como Tiradentes e Carandiru, ambos em São Paulo, foi muito dura. “As experiências numa prisão podem levar à completa ruína do ser humano, bastando citar o suicídio do Frei Tito, que é relatado nas cartas”, sublinha Carvalho.

Frei Betto ficou preso por quatro anos, passando, neste período, de preso político a detento comum. “Apesar de toda a tortura psicológica vivenciada – além do martírio físico sofrido pelos companheiros de cela –, consegue repensar a própria instituição prisional e os sujeitos que a ocupam”, ressalta.

Carvalho salienta que o religioso começou a enviar cartas desde o momento em que foi preso. “Ele remeteu muitas cartas para familiares, amigos e membros da comunidade eclesial. É surpreendente a vasta produção dele”. 

Nesta produção incessante, Frei Betto detalha todo o período que passou em confinamento. “Tudo é relatado. Ele não deixa escapar nada, de coisas corriqueiras até testemunhos de privação de toda ordem, como ser impedido de fazer a missa na cela, o que era o que de pior poderia acontecer a um religioso”.

As primeiras publicações com a correspondência foram “Cartas da Prisão” (1974) e “Das Catacumbas” (1976). Também apresentou uma parte destas cartas em “O Canto da Fogueira”, escrito a seis mãos, ao lado dos freis Fernando e Ivo. Em 2008, reuniu todos os manuscritos em “Cartas da Prisão – 1969-1973”.

A partir da pesquisa “A Prisão Escrita na Literatura Brasileira”, coordenada pela professora Ivete Walty no Departamento de Letras da PUC-Minas, Carvalho focou estudos nas cartas de Frei Betto durante a graduação. “O material dele havia sido muito discutido, mas não investigado”, explica.

“Admiro o Frei Betto como uma pessoa que luta dentro de uma ala da Igreja Católica. Na prisão, no lugar de se indignar com a própria noção de espiritualidade, o exercício de religiosidade se acentua”, conclui.