Em agosto de 1980, em um pedacinho da avenida Augusto de Lima, na região central de Belo Horizonte, uma nova loja de discos abria suas portas, com opções voltadas ao mercado do rock, da MPB, do jazz, entre outros gêneros. Uma atitude considerada corajosa pelos fundadores Pat Pereira e João Eduardo, em meio aos efeitos da crise do petróleo no Brasil e, como consequência disso, aos altos preços dos LPs. Não demorou muito para o lugar, batizado de Cogumelo, se transformar em ponto de encontro dos amantes de heavy metal, sedentos pelas novidades trazidas de São Paulo pelo casal.

No próximo mês, a loja completa quatro décadas, carregando o legado de uma revolução musical que ajudou a cimentar, e segue viva e relevante no celeiro do metal, lutando contra as adversidades surgidas na pandemia.

Gravadora

Cerca de cinco anos após sua fundação, a Cogumelo se tornou também gravadora. “Na loja, a procura era muito grande por discos (de metal), e, estimulados pelo Vladimir (Korg, gerente da loja àquela época), que conhecia as bandas (de metal de BH), a gente se propôs a gravar o primeiro registro do Overdose e do Sepultura, em um split”, relata João Eduardo. “Foi uma luta, mas conseguimos, em dezembro de 1985, lançar o que seria o marco inicial da gravadora”, completa.

Ainda segundo ele, a Cogumelo recebeu duras criticada, por pessoas não familiarizadas com o metal, por ter apostado em um álbum como aquele. “Fomos até ridicularizados por pessoas que não tinham informação na época. Deu no que deu. Colocamos no mercado um som novo, inovador, cru, pesado, uma música de protesto, que só poderia ter saído de Minas Gerais. O disco estourou, com muita persistência, investimento e a ajuda de toda a cena que se estruturava naquela época”, diz.

Korg, que viria depois a lançar álbuns com Chakal e The Mist como vocalista e compositor, via Cogumelo, se lembra bem daqueles tempos. “Fui convidado a trabalhar na Cogumelo pela Pat, e quando comecei lá, apresentei um novo metal a ela. Mostrei Metallica e Slayer e falei que aquilo era o que ia vender, ia começar a crescer. Então, ela começou a gravar as bandas (de Minas). A Pat foi a grande mecenas do metal mineiro, do metal belo-horizontino. Foi ela quem começou a ter esse olhar especial. O João vestiu a camisa um pouco depois e realmente vestiu a camisa mesmo, foi para a linha de frente”, recorda.

Crescimento

Dali em diante, uma constelação de outros grupos se tornou parte do cast da Cogumelo (confira abaixo alguns dos discos lançados pela gravadora). “O resto foi sequência, pois o movimento se consolidou nos anos seguintes, com música de qualidade que viria influenciar todas as gerações de rock pesado aqui no Brasil e no mundo. Em 1986, já vinha a (compilação) 'Warfare Noise I', com Mutilator, Holocausto, Chakal e Sarcófago. A banda que teve mais destaque (da gravadora) sempre foi o Sepultura, pois estourou no mundo inteiro. As outras bandas tiveram sempre uma presença muito forte no underground mundial”, pontua João Eduardo.

Com aquele 'boom' de grupos, a Cogumelo virou de vez referência para o público do metal nos anos 80 e 90, o que influenciou o aumento do fluxo de clientes na loja – clientes, não; fãs!

“Conheci a Cogumelo no fim de 1986 ou talvez no começo de 1987. De tanto ouvir falar da loja, peguei o endereço com um colega na escola. Andando pelo centro, convenci minha mãe a ir àquele endereço. Foi algo do tipo: ‘Esse lugar é para mim’”, conta Carlos Alberto, colecionador de obras do estilo. “O primeiro disco que comprei do selo foi o ‘Schizophrenia’, do Sepultura, no lançamento. A gente se sentia e se sente acolhido na Cogumelo. Que venham mais 40 anos”, complementa.

Anos 2000

A produção de heavy metal pela Cogumelo não se limitou às décadas de 80 e 90. “A carreira do Drowned não seria a mesma se não fosse a Cogumelo. Os 20 anos de trabalho foram de parceria e amizade, com a Cogumelo sempre apoiando a banda nos planos, nas ideias loucas, nos esclarecimentos, nas situações e nos lançamentos”, destaca o vocalista e compositor Fernando Lima, do Drowned, que soltou seu debute pelo selo em 2001, “Bonegrinder”. "Se não fosse ela, não existiria também uma cena onde Drowned teve a sorte de nascer”, ressalta o cantor.

Importante salientar que, ao longo das décadas, o selo também colocou no mercado discos de bandas de outros estados, como os paulistas do Vulcano e do Ratos de Porão e os cariocas do Dorsal Atlântica.

Além disso, a gravadora promovia festivais, inclusive contando com grupos internacionais, o que aumentava ainda mais o interesse dos mineiros pelo metal. “Nós temos muito orgulho do nosso trabalho e do legado que vamos deixar para a música brasileira. E temos certeza que fomos um dos pilares deste movimento. Mas temos de dar credito ao talento das bandas e a parte técnica já presente no pessoal do JG Studio, aqui de BH, que foi muito importante para a gravadora”, comenta João.

Pandemia

Nos últimos anos, a Cogumelo esteve presente também em eventos como feiras de vinil e se tornou sede de tardes de autógrafos de bandas. Mas tudo mudou com a pandemia. “Estamos com as lojas fechadas há mais de quatro meses, e a gente fica triste com isso, pois não temos contatos com nossos amigos, músicos e companheiros de longa data. A gente sempre tenta promover feiras, eventos e shows para que este movimento sempre esteja presente na vida cultural da cidade”, afirma João.

Apesar dos problemas vividos, ele esbanja otimismo em dias melhores. “A pandemia agora traz um novo mundo para todos nós. Tudo vai mudar. Somente com vacinas e o povo unido, iremos vencer este momento. E venceremos, com toda certeza, mais esta crise”, comenta.

A loja, hoje, fica na av. Augusto de Lima, 555, loja 29, no centro de BH.

 

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