BRASÍLIA – O diretor Felipe Bragança cita “Warriors, Selvagens da Noite” (1979) , de Walter Hill,como uma das inspirações para o filme “Não Devore Meu Coração!”, exibido na noite de sexta-feira, na abertura do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

 

A questão das gangues urbanas e da disputa de territórios estão fortemente presentes em ambos trabalhos, mas outros ingredientes se somam ao filme brasileiro que nos conduzem a “Ruas de Fogo” (1984), também assinado por Hill.

 

“Warriors” é realista e violento, como a Nova York do final dos anos 70, enquanto “Ruas de Fogo” insere elementos mais fantasiosos, em que a realidade bruta é suavizada pela recriação de uma cidade que não conseguimos localizar temporalmente.

 

A música pop, a edição ágil e a própria maneira de filmar de Hill contrastam com a ambientação típica dos 50 e com uma violência romanceada, porque ela nunca nos toca como a dolorida história de amor entre um rapaz outsider e uma cantora mimada.

 

Dessa estranheza entre mundos se alimenta “Ruas de Fogo”, assim como “Não Devore Meu Coração!”, uma obra que fala de vários lugares, geográficos (a fronteira entre Brasil e Paraguai) e históricos (a Guerra do Paraguai, ocorrida de 1864 a 1870.

 

O mais relevante na produção de Bragança é a relação entre um garoto brasileiro e uma índia paraguaia, na busca de rompimento com um passado que surge como fantasma na vida deles e dos personagens que os circundam.

 

O que fica, na superfície, é essa inadequação, de coisas que não parecem simples e que, à medida que afloram, nos conduzem a uma recriação imaginária, uma amálgama de vários sentimentos contraditórios que vão da esperança à resignação.

 

Os irmãos Joca (Eduardo Macedo) e Fernando (Cauã Reymond) materializam esses sentidos opostos, da inquietação interna que dilacera negativamente, por viver uma situação que não consegue alterar, e outra que é obstinada e apaziguadora.

 

Da mesma forma que formula perguntas que são mais intuitivas do que objetivas, o filme não entrega respostas prontas, dentro de um ambiente fantástico, de homens motorizados que cruzam uma terra sem lei.

 

Em “Ruas de Fogo”, há uma pulsão rítmica, ditada pela trilha sonora e pela narrativa centrada na conclusão de um amor aparentemente impossível, o que não acontece em “Não Devore Meu Coração!”, mais fragmentado e de fruição interior.

 

O filme apenas se serve destes ingredientes do mundo real, duro, machista e dividido por muros para nos fazer pensar sobre possibilidades, concretas ou não. O que trata, na verdade, são dos pequenos e puros gestos.

 

Como os garotos estirados em pranchas de madeiras que são levados pelo rio, não sabemos aonde tudo isso irá dar. O que importa é que algo nesta estrutura foi mexido.

 

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Brasilia do Cinema Brasileiro