Ele não gostava de estudar. Quando resolveu entrar na Academia, cursou um semestre por acreditar que só repassavam o que era senso comum. Quase enveredou pela música, por influência do pai, mas percebeu que somente em outra arte teria espaço para criar. Assim é a história de Paul Klee (1879-1940), que foi de um aluno que tirava notas baixas e zombava de professoras, em Berna, na Suíça, a um dos maiores pintores modernos do mundo.

A trajetória do pintor é contada na exposição “Paul Klee – Equilíbrio Instável”, em cartaz a partir de hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, após passar por São Paulo e Rio de Janeiro. “Como essa é a primeira grande exposição dele no Brasil, resolvemos fazer uma retrospectiva, desde os desenhos infantis até a última obra que ele produziu, mostrando os vários estilos e diferentes aspectos”, destaca a curadora Fabianne Eggelhöfer.

Fabianne é curadora-chefe do Zentrum Paul Klee, de onde vêm as mais de cem peças da mostra que ocupará, até 18 de novembro, o segundo andar do prédio do CCBB. O museu foi criado em 2005, na cidade suíça de Berna, terra natal do pintor, e hoje possui a maior coleção dedicada a Klee, com 4 mil peças, além de livros, fotografias, correspondências e objetos pessoais. Ao todo, o artista concebeu mais de 10 mil obras.

A coleção do Zentrum chega pela primeira vez à América Latina e a curadora espera mais do que uma apresentação à obra do suíço, que trafegou por expressionismo, cubismo e surrealismo. “Quando levamos a arte de Klee para o exterior não é só para falar quem ele foi e qual o tipo de arte dele. Vemos uma oportunidade de abrir o diálogo com o público de outros países, trazendo novos aspectos nas obras”, registra.

Primeiros Desenhos
Entre as curiosidades da mostra, estão os primeiros desenhos de Klee, quando ainda era criança. “Eu os incluí não por considerar que ele era um gênio precoce. Você pode perceber que são desenhos parecidos com os que de qualquer criança. Mas eu os escolhi porque tinham muita importância para Klee”, explica a suíça, lembrando que, em 1913, o artista passou a catalogar toda a produção, com ano, número e título, incluindo os primeiros desenhos, feitos em cartolina.

Há, porém, outros trabalhos, presentes na exposição, que não foram acrescidos no catálogo, por Klee ver neles apenas treinamentos, como quando, ainda jovem, buscou reproduzir cenários de Berna e ou partes internas do corpo humano. Ele chegou a frequentar aulas de anatomia porque estava interessado em descobrir o que estava por baixo da superfície. Estes estudos foram, em seguida, usados em obras que comentavam, em forma de crítica, a sociedade e a política.

Vanguarda
Ela assinala que Klee encontrou a própria arte quando percebeu que havia outros artistas com pensamentos parecidos, aderindo a grupos de vanguarda. Foi quando a obra dele passou a ganhar mais cores. “A cor tomou posse de mim”, teria dito, após uma viagem à Tunísia, em 1914. “Ele não era um artista que copiava, digerindo o que via”, salienta a curadora.

A passagem pela seminal escola de design Bauhaus, na Alemanha, onde foi professor por dez anos, também foi um marco. Deste período, em que há um grande foco em teatro e circo, a exposição apresenta “O Equilibrista”, uma metáfora para a própria vida do artista, sempre na corda bamba. É o que dá nome à mostra. “Hoje em dia a gente vive neste equilíbrio instável, uma hora pendendo para um lado e depois pendendo para outro. Klee sentiu isso ao longo de toda a vida”.

Outra obra importante, que está na exposição em fac-símile, é “Angelus Novus”, comprado pelo filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin em 1921. Este a “salvou” diversas vezes de ser destruída durante a Segunda Guerra Mundial, após perceber nela a síntese de uma época, com o anjo representando o processo histórico como um incessante ciclo de desespero. A mostra fecha com os trabalhos feitos no período em que Klee estava doente (com escloredermia), o que o não impediu de ser bastante produtivo, com mais de 1.200 obras em 1939. 

“Paul Klee – Equilíbrio Instável” – De hoje até 18 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, Lourdes). 
De quarta a segunda, das 10h às 22. Entrada franca.