Modelo francesa de vários pintores no início do século 20, Kiki de Montparnasse bateu o pé diante do fotógrafo americano Man Ray: jamais posaria para o registro de uma foto por não considerá-la uma forma de arte. As diversas imagens de Kiki nas paredes do Centro Cultural Banco do Brasil, que recebe a partir de hoje a exposição “Man Ray em Paris”, provam que o artista surrealista conseguiu mudar não só a opinião da modelo. Tornou-se amante dela, apontando para uma fotografia que pode “fugir da realidade”.

Essa expressão é a mais usada pela curadora da exposição, a historiadora de arte francesa Emmanuelle de l´Ecotais. Estudiosa da obra de Ray, ela reuniu cerca de 250 trabalhos, entre fotografias e objetos, de uma coleção particular da França, nesta que é a primeira retrospectiva sobre o artista no Brasil. “Ele revolucionou a fotografia, fazendo de cada registro uma prova de liberdade”, assinala.

Entre os destaques da mostra estão as imagens “Violino de Ingres” (1920) e “Preta e Branca” (1926), ambas com Kiki de Montparnasse. A primeira foi a que fez a modelo se convencer do potencial artístico da fotografia, quando Ray reproduziu um quadro de Ingres como se tivesse usado um pincel no lugar da câmera, analogia que sempre gostava de fazer. Também presentes vários exemplos de suas principais invenções – a solarização e a rayografia –, que o aproximavam do movimento surrealista.

Foi graças a um encontro em Nova York com Marcel Duchamp (outro ícone das vanguardas europeias), em 1915, que Ray entrou para o movimento e se mudou para a França, onde ganharia dinheiro fazendo retratos e trabalhando para revistas de moda. Para Emmanuelle, passado um século, a produção do fotógrafo, falecido em 1976, ainda é capaz de produzir choque, por ser “até hoje extremamente moderna e fora do comum”.

Como o título deixa claro, a exposição foca na passagem de Ray por Paris, entre os anos de 1920 e 1940, época em que teve produção efervescente. Durante a Segunda Guerra, ele retornou aos Estados Unidos, deixando de lado experiências artísticas. “Em 1951, voltou à França e com a intenção de divulgar o seu trabalho, concentrando-se em 60 obras. Quando mergulhei na obra dele, foi uma surpresa ver que havia muito mais que merecia ser conhecido”, diz a curadora.

SERVIÇO:
Man Ray em Paris” – De hoje até 17 de fevereiro, no Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 45). De quarta à segunda, de 10h às 22h. Entrada gratuita.