Leo Gandelman compara a música com esportes coletivos como futebol e voleibol. Para ele, apesar das transmissões digitais terem ajudado muitos artistas durante a pandemia, o resultado não é muito diferente de uma partida em que cada jogador atuasse de casa, sem pôr os pés no gramado ou quadra. “Música não foi feita para distância. É um esporte coletivo. É preciso estar junto para ter uma interação musical e espiritual”, registra.

A comparação não é por acaso, já que Gandelman é o “presidente” do time que entra em campo no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Criador do projeto “Quadrilátero”, ele preferiu esperar o coronavírus dar uma pequena trégua para reunir alguns dos mais importantes instrumentistas do país. Depois de Rio de Janeiro, as apresentação acontecem até domingo em BH, em formato exclusivamente presencial.

A brincadeira com o esporte pode se estender ao fato de cada show ter uma equipe diferente, de acordo com a família de instrumentos. Mas não se trata de competição, como destaca Gandelman. “É importante os músicos, nossos colegas de instrumento, se encontrarem para ter uma troca, seja de informação, musical ou de amizade simplesmente”, explica o saxofonista, que fará neste sábado uma master class, às 15h, aberta ao público.

O nome “Quadrilátero” define bem o que é o projeto: são quatro apresentações, com quatro artistas representativos de quatro famílias de instrumentos que se apresentam em quatro cidades brasileiras (após a capital mineira, as apresentações acontecerão em São Paulo e Brasília). No CCBB da Praça da Liberdade, os shows começaram ontem, com os representantes da percussão – Pretinho da Serrinha, Robertinho Silva, Marcos Suzano e Marcelo Costa.

Hoje será a vez da turma do sax, liderada por Gandelman, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise e Zé Carlos Bigorna. Sábado é dia das cordas dedilhadas, com Henrique Cases, Rogério Caetano, Luis Barcelos e João Camarero. Por fim, no domingo, as cordas com arco, com Janaina Salles, Carla Rincon, Inah Kurrels, Jocelynne Huiliñir Cárdenas. “Cada artista se apresenta solo, mostrando sua relação com o instrumento. Depois, o grupo se encontra numa jam session”.

Para o show de hoje, não faltam elogios ao mineiro Nivaldo Ornelas, cuja casa serviu de ponto de encontro para os músicos que formariam o Clube da Esquina. Aos 80 anos, ele é “uma influência viva, não só para mim como para todos os saxofonistas brasileiros hoje, exibindo um som marcante, muito pessoal, cristalino e maravilhoso; é um compositor muito sensível e um músico bastante criativo”, destaca o anfitrião.

Gandelman está completando cinco décadas de trajetória musical. Com uma carreira consolidada, ele tem se dedicado à vertente televisiva, como produtor e apresentador de duas séries sobre música. “Acabei de filmar a quinta temporada de ‘Vamos Tocar’, voltada para a história da MPB e que irá ao ar em setembro, no canal Bis. Agora parto para a segunda temporada de ‘Hip Hop Machine’, que fala da relação do jazz com o hip hop”.