Provisoriamente, esqueça "Aqueles Dois" - mas só provisoriamente. Tido como um clássico recente do teatro nacional, a mais bem-recebida das seis montagens que a Luna Lunera realizou em 12 anos de existência é "quase uma unanimidade, um arrebatador de público". "Prazer" – que estreia nesta quinta-feira (10), só para convidados, no CCBB BH, onde permanece em cartaz até dezembro, sempre entre sextas a domingos – é de uma outra natureza.

Inspirada em "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector, descreve idas e vindas, altos e baixos de quatro companheiros sinceros, inquietos, comprometidos em converter em prazer, em celebrar circunstâncias aparentemente desimportantes.
Situações experimantadas pelos quatro atores (Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves) comparecem, transmutadas, na dramaturgia de Jô Bilac. Caso do "gosto pela vida" – apesar de a inocência de juventude não perdurar – que Odilon trouxe às primeiras reuniões sobre o que montar; e do quanto trabalho e humanidades podem conviver, o que Isabela presenciou ao acompanhar o cotidiano do grupo Odin Teatret, na Dinamarca, como seu objeto de estudo acadêmico.

Desde a estreia, em novembro de 2012, depois de quase um ano de elaboração e ensaios, o espetáculo estreou em São Paulo, passou por Rio de Janeiro, Brasília, e pelos festivais de Curitiba e Ouro Preto/Mariana. O patrocínio do CCBB lhe permitiu longas temporadas nos três primeiros, somar 90 apresentações até aqui.

Mas chega significativamente alterado comparado ao último ensaio, na sede da Cia: "Como somos atores/criadores (como Zé Walter Albinatti, fora de cena) e não precisamos respeitar as escolhas de um diretor convidado, tivemos a coragem de arriscar, de ser coerentes com a proposta dos ensaios, acompanhados e avaliados por parceiros, e avançar. Mudamos muita coisa na temporada de São Paulo e estamos mudando de novo. Os iluminadores (Felipe Cosse e Juliano Coelho, premiados com o Shell/SP por ‘Aqueles Dois’) ficaram loucos, antecipa Isabela, que de 2004 até 2010 esteve "lá e cá", na ponte entre Brasil e Europa.

Além de alterar a ordem de algumas cenas, de enxugar a encenação em cinco minutos e deixá-la mais em acordo com a escuta (que no Luna tanto se privilegia), as mudanças não sacrificariam o que se mostrou inestimável: a cia sempre incentivou o retorno escrito do público daquilo que viu e recebe em troca mensagens incríveis. Incontáveis depoimentos íntimos, sensíveis, tocantes. Na temporada carioca, duas amigas foram ao CCBB, animadas por outra, que caiu no mundo, mochilão às costas, depois de re/ver "Prazer".

Assim tem sido este contato, esta mútua estimulação, em todos os espetáculos. Desde "Fuleirices em Fuleiró", que o falecido Marcos Vogel dirigiu, quando os atores ainda eram alunos do Cefar. A partir dali, outra admirável história teatral se escreve na cidade: seis montagens de sucesso, intensas relações com notáveis parceiros. Como Mario Nascimento, Éder Santos e Roberta Carrieri, do Odin, em "Prazer". Só as leis de incentivo não contemplam à altura todo este status: há dois anos a Luna não ganha para manutenção, em 2014 tem agenda apenas para Goiânia, capital que o sucesso do "Aqueles Dois" ainda não visitou.