Um dos grandes clássicos da literatura mundial contemporânea, “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, terá finalmente versão em audiovisual. A obra do ganhador do Nobel de Literatura – que sempre resistiu à ideia de transformar o trabalho em filme – não vai para as telonas em produção hollywoodiana, mas será transformada em série produzida pela Netflix.

Na quarta-feira, data em que Márquez completaria 92 anos, a empresa anunciou a compra dos direitos autorais do livro, algo que os herdeiros do escritor rejeitaram por muito tempo. A família acreditava que a obra de Márquez não teria como ser transposta para a o audiovisual porque haveria perda muito grande da riqueza de detalhes contidas nas páginas.

“Cem Anos de Solidão”conta a história dos descendentes da família Buendía, fundadora do povoado de Macondo. É tida como a obra máxima de Garcia Márquez e responsável por lhe dar o Nobel, em 1982. O livro foi lançado em 1967 e já vendeu mais de 50 milhões de exemplares nos 46 idiomas em que foi traduzida desde o lançamento.

Avanço

Com “Cem Anos de Solidão” a Netflix avança no mercado dos filmes de língua hispânica, no qual já coleciona sucessos, como “Roma”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. 

Os dois filhos do escritor, Rodrigo e Gonçalo Garcia, serão os produtores-executivos da série, que está sendo aguardada com expectativa pela professora Terezinha Taborda Moreira, do Programa de Graduação em Língua Portuguesa da PUC Minas. Ela afirma que qualquer transposição de obra literária para o cinema é sempre bem-vinda porque permite que se estabeleça um diálogo com outras mídias, ainda que, como temiam os filhos do escritor colombiano, detalhes da obra escrita possam ser perdidos.

Ela, porém, ressalta o ganho com o audiovisual, como a possibilidade de chamar a atenção de outras pessoas para a obra original. “Sempre recebo bem propostas de diálogo. A gente tem que estar aberto para elas”, ressalta Terezinha Moreira, que considera Gabriel Garcia Márquez o grande marco da literatura latino-americana e criador de uma obra que também exerceu profunda influência sobre a literatura brasileira. 

Crescimento

Para Paulo Sérgio Almeida, diretor da empresa de análise do mercado cinematográfico Filme B, a compra dos direitos autorais de “Cem Anos de Solidão” irá dar à Netflix um espaço ainda maior para crescer, por se tratar de uma obra famosa que oferece variadas alternativas de adaptação, tanto em número de temporadas quanto de episódios. “É uma obra inesgotável”, afirma. 

Almeida considera sem precedentes na história do cinema o avanço da Netflix, especialmente pela capacidade que a empresa tem de buscar com inteligência os diversos mercados locais, como o latino-americano. Ele, no entanto, acha que ainda é cedo para se dizer se o streaming caminha para matar a exibição tradicional. Isso só será possível dentro de algum tempo, ressalta, pois depende de se conhecer como será a movimentação dos estúdios tradicionais nessa área, o que, segundo ele, ainda não está claro