O sobrinho Chico Aníbal não teve muita colher de chá. Sabedora do interesse dele pelas artes quando ainda tinha pouca idade, Maria Clara Machado – nome mais importante do teatro infantil no país – se resumia a dizer: “se você quer ir para esse caminho (como ator) mesmo, vai fazendo aí com os amigos”, aconselhava.

“Ela nos deixava livres. Não ficava protegendo, passando a mão na nossa cabeça. Nos deixava à vontade para seguir o nosso caminho. Esse foi o grande aprendizado que tive com Maria Clara”, registra Chico Aníbal, que, neste domingo, falará um pouco da trajetória da tia durante a programação da segunda edição da Feira Literária de Tiradentes.

Ele não se restringirá à história da dramaturga, que completaria 100 anos em 2021, passeando pela genealogia da família. “Vou aproveitar para falar um pouco da família Machado, começando pelo meu avô, Aníbal Machado. São várias gerações de escritores”, destaca Aníbal. 

“O ar que respiramos sempre foi literário e artístico”, sublinha Aníbal, que chama a atenção para o fato de que a tia iniciou carreira em cima do palco e não nos bastidores. “Maria Clara estudou teatro na França antes de fundar o Tablado. Ela começou como atriz, mas logo passou a querer a suas próprias histórias”, afirma.

O ator, hoje residente em Tiradentes, observa que a obra de Maria Clara é muito criativa, com uma comunicação “mais próxima à criança, de uma maneira muito respeitosa”. Ele lembra que “Pluft, o Fantasminha” estreou nos palcos em 1953 e nunca parou de ser encenado. 

“Trata das questões da vida de maneira muito lúdica e engraçada, sem cair nessa coisa meio piegas, A linguagem dela é muito próxima à realidade das crianças”, analisa Aníbal, que cresceu vendo as peças da tia famosa. “De uma maneira ou de outra, as histórias dela me ajudaram muito a entender como falar para o público infantil”.

Conhecida por peças como “Pluft, o Fantasminha” e “O Cavalinho Azul”, além de ter fundado o Teatro Tablado, a dramaturga faleceu em 2001

Em 1951, Maria Clara criou o Tablado, escola que já formou mais de cinco mil profissionais das artes cênicas, como as atrizes Marieta Severo, Cláudia Abreu e Malu Mader. Aníbal sempre acompanha as aulas. “Ela deixava o aluno muito à vontade para criar. Com ela à frente, o Tablado virava uma família, onde se tinha muito respeito e disciplina”, comenta.

Os elogios também se voltam para a pessoa que tinha “um olhar muito sensível para o mundo”, com uma obra que resulta, principalmente, das experiências de vida da dramaturga. “Sempre ressaltou a questão da liberdade. ‘A Menina e o Vento’ representa muito Maria Clara na infância, em seu desejo de soltar as amarras e cair no mundo”. 

Escritora é tema de documentário ainda inédito comercialmente

“Guardado” para comemorar o centenário da dramaturga mineira, após boa recepção em festivais de cinema, o documentário “O Tablado e Maria Clara Machado” não pôde ser lançado em abril (mês de nascimento de Maria Clara) devido à pandemia, quando boa parte das salas permaneceu fechada no país.

“Os planos mudaram. Apesar de não lançarmos o filme, fizemos muitas lives e criamos um site. Só vamos lançar quando não houver risco para ninguém”, destaca a diretora Creuza Gravina, uma ex-aluna do Tablado que pôs no documentário as várias gerações que passaram pela escola de teatro.

“São 62 entrevistados, sendo que alguns deles já faleceram, como a crítica de teatro Barbara Heliodora e a atriz Lupe Gigliotti. Muitas pessoas se formaram lá e depois retornaram. O Tablado tem uma tradição de continuidade bem interessante, fruto desse tratamento familiar que Maria Clara ofereceu”. 

Filme mostra cenas de Marieta Severo como Bruxa Chefe, Malu Mader como a menina que voa com o vento e Claudia Abreu e Andréa Beltrão como fantasmas

Creuza destaca que o documentário busca ser abrangente, não se limitando a quem está à frente da cena. Diretores, iluminadores e figurinistas, entre outros, também se fazem presentes. “Um dos conceitos transmitidos por ela é a questão colaborativa. Para ela, era importante que aprendessem um pouco de cada coisa”.

A cineasta salienta que, numa peça, um aluno poderia ser escalado como protagonista e, no trabalho seguinte, ser deslocado para a bilheteria. “Variava muito. Maria Clara queria mostrar com isso que o trabalho é resultado de um todo”, destaca Creuza, que pesquisou as fichas técnicas de todas as peças.

Ela também era muito espirituosa. Creuza cita o dia em que alguém trocou o título de um de seus livros, dizendo “50 Jogos Dramáticos” ao invés de “100 Jogos Dramáticos” (escrito com Marta Rosman). Maria Clara não se fez de rogada e cortou pela metade o publicação, entregando-a para o autor da confusão.

A síntese da obra de Maria Clara Machado é feita, no documentário, por Barbara Heliodora. A crítica avalia que as peças da dramaturga iam muito além do espectador mirim. “As mensagens, segundo ela, não eram só para crianças, sendo bem aceitas pelos adultos”.