Dos tempos em que ainda cursava teatro, nos anos 90, uma cena ficou tatuada na memória da atriz Sidneia Simões. Em casa, em um exercício proposto pelo professor Luiz Paixão, pôs-se a passar um trecho de “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues. Foi quando percebeu que do rosto do pai, hoje já falecido, corriam – sim! – lágrimas.

“Veja, meu pai, que nunca tinha ido ao teatro – nem mesmo para assistir às coisas que fiz –, uma pessoa do interior, simples, se tocou com o texto”, diz ela, que, a partir desta sexta-feira (5), aproximadamente duas décadas após aquele momento marcante, encarna a personagem Moema na versão que a Cia da Farsa, na qual é uma das integrantes, apresenta no Galpão Cine Horto.

Bem, a cena familiar pode ter sido o embrião da vontade de Sidneia em submeter o texto completo ao crivo do público, mas cumpre dizer que a opção pelo texto foi unânime também entre os outros componentes: Alex Zanonn, Alexandre Toledo, Marcus Labatti e Pedro Vieira. “Uma coisa bacana é que todos os personagens são bons, o que, claro, é interessante para uma companhia”, diz Sidneia.

O projeto começou a tomar corpo em novembro do ano passado. “Foi quando sentimos que era importante ter um olhar de fora, então chamamos João Valadares, que é um jovem diretor. Foi uma oportunidade de trabalhar com ideias novas, e foi um processo prazeroso e colaborativo – muitas pessoas de fora do grupo, como atores e amigos, conhecidos, foram chamados para ver os ensaios, e daí coletamos algumas impressões e mudamos algumas coisas”, lembra Sidneia.

Sobre a sua Moema, Sidneia diz que a protagonista representa o complexo do Eletra. Apaixonada pelo pai, leva tudo ao extremo, “Ela é muito determinada, na loucura, no desejo dela, que fala mais forte que tudo. Para o ator é legal fazer um personagem que leva as situações ao extremo, já que, na vida a gente tenta ser moderado, comedido”. Em tempo: a montagem marca os 13 anos da companhia.