O que torna “Cicatrizes” diferente em relação a outros filmes-denúncia é o fato de suprimir a linha investigativa que muitos destes carregam, transformados num movimentado suspense até o total esclarecimento. 

A produção sérvia segue rota quase contrária, ao deixar de lado a ação para privilegiar o sentimento, em especial a sensação de vazio de uma mãe que tenta achar o paradeiro do filho dado como morto.

A história é inspirada em fatos verídicos sobre o rapto de bebês em maternidades para doação a famílias ricas, ocorridos há cerca de 20 anos. 
Essa informação é diluída ao máximo na trama – o crime só é explicitado em duas cenas, numa conversa de telefone de uma diretora de hospital e, principalmente, quando um comissário confirma a doação e pede para a mãe aceitar os fatos, pois ir à Justiça sairia muito caro.

Dirigido por Miroslav Terzic e protagonizado pela veterana atriz Snezana Bogdanovic, o filme foi o indicado da Sérvia para concorrer a uma vaga, neste ano, ao Oscar de melhor longa-metragem estrangeiro e foi exibido em festivais como o de Berlim, de Pequim e de Zurique

“Cicatrizes” se atém, na primeira hora, à angustia desta mulher, Ana, que é tachada de paranoica e parece viver em casa, em piloto automático, não se desviando um só momento do objetivo que a consome por 20 anos. 

A gente poderia falar em intuição e pressentimento sobre o filho estar vivo, mas essa linha também é abolida pelo diretor Miroslav Terzic. Ela mesma é mostrada como uma espécie de fantasma.

A sequência de abertura do filme é um bom exemplo desta opção, quando a protagonista passa longos minutos observando a entrada do hospital. Esse momento, em outros cenários, se repete várias vezes ao longo da trama, num estado de espera constante e silencioso.

Uma espera que pode muito bem ser definida como a possibilidade de ressurreição, com a vida sendo devolvida somente quando encontrar o que se deseja.

Para ampliar esta sensação fantasmagórica, Terzic registra uma cidade de Belgrado (capital da Sérvia) vazia. Em exteriores, as ruas e os prédios parecem tragar os personagens, como se estivessem enterrados naquele local. Nas cenas internas, as conversas raramente se dão de maneira convencional. Os diálogos praticamente não saem do tema, como se girassem em círculos, dando uma carga mais opressiva.

Seco em alguns momentos, em razão da amargura da personagem central, “Cicatrizes” tem momentos poéticos, em especial um que Ana exemplifica sua vida maquinal ao, diariamente, mudar a posição de um ornamento mineral numa penteadeira. Ao final, a leitura fantasmagórica se faz mais uma vez presente, quando esta pedra é movimentada não mais pela mãe, mas sim por alguém estranho àquele universo.

Assista ao trailer: