“Carreira?”, indaga Ricardo Aleixo, poeta mineiro, um dos mais importantes do país. Após uma boa risada, o autor, que abre nesta quarta (12) o Ciclo de Literatura Contemporânea, com uma mesa sobre o próprio trabalho (e também o de Nicolas Behr), põe em xeque este conceito para qualquer artista no Brasil e no mundo.

“A figura do artista, que ora é endeusada e ora é vilipendiada, como acontece no Brasil e em outros países neste momento, é vista como vagabunda, na melhor das hipóteses. Com a emergência da extrema-direita, assumimos o lugar mais marginal e invisível”, lamenta.

É por isso que Aleixo opta por palavras como “trajetória” ou “caminhada”, no lugar de carreira. “Falar em carreira com relação a uma atividade, mesmo entre os artistas, não há consenso. Há muita dificuldade em entender o que praticamos no cotejo com outras atividades profissionais”, assinala.

A leitura que faz do tema “O Circuito e a Margem” – eixo da programação do Ciclo, espalhada em várias mesas e apresentações que ocorrerão até sábado – surge na forma de dúvida em relação à própria arte. “Hoje me parece que a arte é um artifício para estar presente no circuito, criando um cenário próprio”.

Um exemplo: “Cantor lança um single, que recebe muita badalação. Em seguida, consegue um contrato com coisa de moda”, ilustra. Moda? “Sim, com a viralização nas redes sociais, ele ganha este tipo de contrato. É de onde virá o dinheiro”, salienta.

No caso de Aleixo, não é muito diferente. Quando uma editora o contrata, observa ele, está querendo, em troca, prestígio (“A poesia concede um selo de qualidade”, frisa) e a capacidade de se “movimentar com as próprias pernas” – mais necessariamente a forma como criou um certo público em torno dele.

Tema urgente

É a primeira vez que BH recebe o Ciclo, que já passou por Recife e Brasília. Nos dois anteriores, o tema eram os novos formatos de leitura. “Mudamos de tema porque essa é coisa do momento, sobre o que estamos vivendo”, destaca Izadora Fernandes, idealizadora do projeto.

“Não é um evento que vai discutir a literatura pura e simples. Seria maravilhoso se fosse só isso. Todas as mesas são bem enfáticas em relação a posicionamentos, a um olhar mais crítico”, sublinha Izadora, que reuniu um time formado, entre outros, por Elisa Lucinda, Cidinha da Silva, Célia Xacriabá, Luiz Antônio Simas, Marcelino Freire, Nívea Sabino, Valeska Torres e Siba.

Programação acontecerá no Sesc Palladium, Teatro Espanca, Museu de Arte da Pampulha, Brejo das Sapas, Centro de Referência da Juventude, Bar do Ministério da Cultura e Livraria Quixote. Informações neste site.