Uma parte importante da história cultural de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, estará novamente de portas abertas a partir de hoje. Inaugurado em 1959, o Cine Bandeirante foi reformado e funcionará como centro cultural, ampliando o leque de atrações além da sétima arte, abrigando também teatro, dança e palestras.
 
Agora batizado de Centro Cultural José da Costa Sepúlveda, o espaço de 500 lugares ainda terá o cinema como carro-chefe. Para muitos moradores do município, é como uma volta no tempo. “Restaura-se, antes de tudo, uma parte fundamental de cada um de nós”, observa Sérgio Alexandre, uma espécie de enciclopédia sabarense no que diz respeito à cultura. 
 
Hoje servidor da prefeitura – que injetou R$ 1,1 milhão no projeto de recuperação em conjunto com a Vale –, Alexandre observa que não são poucas as histórias de quem frequentou o cinema. E, em boa parte, elas são emolduradas por filmes que iam dos sucessos bíblicos, como “Os Dez Mandamentos”, a produções italianas de faroeste (os chamados “spaguetti”).
 
“Também eram exibidos os filmes nacionais, que eram uma forma de ver os artistas do rádio, como Dick Farney. Víamos ainda as comédias de Mazzaropi, os dramas da Vera Cruz e os filmes da Atlântida protagonizados por Oscarito e Grande Otelo”, recorda Alexandre, que se lembra de ver longas mais complexos como “Face a Face” (1976), de Ingmar Bergman.
 
A criação do Bandeirante partiu de uma constatação do prefeito da época, que agora dá nome ao centro cultural. “Havia o Cine Borba Gato, que funcionava dentro do Teatro Municipal de Sabará (antiga Casa de Ópera, aberta em 1819). Ele estava preocupado, já naquele tempo, em preservar o teatro. Olha que visão a dele!”, assinala Sérgio Alexandre.
 
Doação
“Por amor à arte e à cidade”, como frisa Alexandre, o prefeito simplesmente doou a casa em que morava para a prefeitura construir o Cine Bandeirante. “Como lembrou uma neta dele, Sepúlveda doou uma parte da história da família”, registra. O cinema abriu com a exibição de “A Caldeira do Diabo”, um dos grandes sucessos do ano anterior.
 
A sala só teve como concorrente o Cine São Francisco, que acabou dando lugar à sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Sabará. O Bandeirante passou por dificuldades nos anos 80, sendo reaberto em 1989. Enfrentou nova crise, com falta de equipamentos adequados, e não viu outra saída a não ser fechar as portas em 2009.
 
A reforma vem sendo estudada desde 2012, mas só em 2017 ganhou fôlego. “Queremos trazer um tipo de cinema que possa levar a sociedade à reflexão”, adianta o secretário de Cultura Hamilton Alves, que participará da inauguração hoje, para convidados. O espaço estará aberto ao público a partir de amanhã.
 
O centro cultural dispõe de equipamentos novos, mas Alves ainda pretende investir mais no cinema, especialmente nos projetores, que, por enquanto, só exibem filmes em DVD e blu-ray. “Tanto o cinema quanto o teatro serão bem ativos”, promete o secretário. O próximo passo será reabrir o Teatro Municipal, o que está previsto para o segundo semestre. Ele foi fechado em 2016 para reforma.