“Aos mais de 80 anos, Godard caminha junto com a juventude”. A afirmação de Eugenio Puppo, cineasta e organizador da mostra dedicada ao cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard, que acontece a partir desta sexta-feira (18) até o dia 12 de janeiro, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes, contrapõe-se à ideia corrente de que um dos fundadores do movimento Nouvelle Vague, na década de 60, não passa atualmente de um criador de obras herméticas e aborrecidas.

Puppo cita o último filme de Godard lançado nos cinemas, “Adeus à Linguagem”, em que o realizador se vale do 3D de uma maneira original. “É um filme belíssimo, uma pintura que fala muito a todos nos dias de hoje, além de representar não só uma ruptura a suas próprias obras anteriores como ao cinema 3D em geral. Isso deve entusiasmar o público jovem do mesmo jeito que me entusiasma”, registra.

Por sinal, “Adeus à Linguagem” é uma das produções que formarão a seleção belo-horizontina da mostra, apresentada inicialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Para quem esperava por uma retrospectiva completa, como nas outras cidades, terá que se contentar com 43 dos 125 títulos reunidos em três anos de intensas negociações. “O público não faz ideia quando assiste aos filmes, mas às vezes uma única cópia mobilizou uma infraestrutura imensa”.

O curador observa que se fez necessário um diálogo exaustivo e diário com parceiros franceses, além de uma viagem à França para selar acordos com 16 distribuidores e instituições. “E, para complicar, a recente alta do euro quase inviabilizou o projeto. Infelizmente, está cada mais difícil realizar projetos dessa magnitude no país, uma vez que estamos na era da simplificação e da superficialidade. Projetos como esse são raridades”, analisa.

FACETAS DO MESTRE

Apesar de menor numericamente, o recorte mineiro não pode ser desprezado. Puppo optou por mostrar o maior número de facetas de Godard, juntando filmes conhecidos que poucos conseguiram assistir no cinema a algumas raridades. Serão exibidos longas, médias e curta-metragens, séries de televisão e vídeo-cartas nunca antes exibidos em Belo Horizonte, com destaque para “Histórias de Cinema”, série de oito episódios para a TV.

“Por incrível que pareça, as maiores dificuldades (para trazer) não foram as séries ou curtas, mas sim os longas mais famosos, devido às questões legais”, destaca Puppo, que reservou para Belo Horizonte “Acossado” (1960), estreia de Godard no longa-metragem e considerado inovador por sua desconstrução do discurso cinematográfico, e “O Demônio das Onze Horas” (1965), uma peculiar história de amor envolvida pelo humor ácido do cineasta.

Com a retrospectiva, Puppo acredita na oportunidade de expandir o público do franco-suíço, especialmente aqueles que não vivenciaram as revoluções culturais dos anos 60 e 70. “Essa mostra é dedicada exatamente aos jovens. Com ela, podemos colocar Godard no protagonismo dos holofotes cinematográficos por um tempo. Seus filmes não perderam a vitalidade. Muito pelo contrário. Godard nunca deixou de se reinventar e revolucionar”.

MOSTRA JEAN-LUC GODARD

Confira a programação dos quatro primeiros dias da mostra

18 SEXTA
15h Vladimir e Rosa
17h Lutas na Itália
19h Filme socialismo
21h Os três desastres / Adeus à linguagem

19 SÁBADO
15h História(s) do cinema
17h Carta a Freddy Buache. Sobre um curta-metragem a respeito da cidade de Lausanne
Carta à bem amada
19h Paixão
21h O desprezo

20 DOMINGO
15h História(s) do cinema
17h 2x50 anos do cinema francês
19h Rei Lear
21h O Demônio das Onze Horas

21 SEGUNDA
15h Historia(s) do cinema
17h As Crianças Brincam de Rússia
19h Como você vai?
21h Acossado