"Acho que pode-se dizer que fiquei mais famoso com ‘Twin Peaks’, mas tudo é relativo. O que é ser famoso?”, indaga David Lynch no livro recém-lançado “Espaço para Sonhar” (editora Best-Seller). O excêntrico cineasta, dono de alguns dos filmes que estão entre as obras-primas dos últimos 40 anos, prossegue citando um gênio da comédia nas décadas de 1960 e 1970, Mel Brooks, que seria um desconhecido para qualquer cidadão com menos de 25 anos.
 
“Entende o que quero dizer? Quando você envelhece não há ninguém que se lembre do que você fez”, assinala, por fim. Esse relativismo, que se aproxima de um ar blasé na forma de ver a si mesmo, sintetiza a biografia de Lynch, que desconfiou até mesmo da bondade dos seus pais quando criança. Quando caminhava pelas ruas da cidade natal, Boise, em Idaho, reconhecia que a atmosfera daqueles anos 50 “é sonhadora, mas não totalmente positiva”.
 
Ao dizer que, ao passear de bicicleta depois que a noite caía, carregava a sensação de que, em algumas casas com luzes mortiças, “aconteciam coisas que não eram felizes”, Lynch faz uma radiografia de sua filmografia, sempre em busca do que está por trás da aparência e da normalidade. Longas como “Cidade dos Sonhos” e “A Estrada Perdida” exibem histórias carregadas de dualidades e situações que passam pelo bizarro e o surreal.
 
“Twin Peaks”, predecessora das complexas séries que inovariam a linguagem da TV, se debruça sobre a morte de uma colegial, apontando ao final que toda a cidadezinha estava, de alguma maneira, envolvida naquele assassinato. No livro, Lynch afirma que o sucesso enorme do programa não significou nada para ele. “Sempre digo que o fracasso não é tão ruim, pois não resta aonde ir a não ser para cima”, possibilitando uma “sensação de liberdade”.
 
Para o realizador, a série se resume ao piloto, que foi ao ar em 8 de abril de 1990, e o capítulo final, o que chama de Sala Vermelha. “Some isso e terá o verdadeiro ‘Twin Peaks’. É algo bonito, delicado, e há mais em jogo do que os olhos podem ver. Há mistério no ar”, explica. Não é à toa que, ao justificar a feitura do livro na introdução, Lynch desfaça qualquer ideia de uma biografia definitiva. “É uma crônica de coisas que aconteceram, e não a explicação do que significam”.
 
O último trabalho de Lynch foi um curta-metragem “What Did Jack Do?”, de 2017, disponibilizado na Netflix no último dia 21, data do aniversário de 74 anos do cineasta. Nele, Lynch é um detetive que interroga um macaco acusado de assassinato. O mistério continua movendo-o e só terminará com a morte. “É impossível realmente contar a história da vida de alguém. O máximo que podemos esperar transmitir aqui é um Rosebud muito abstrato. Em última análise, cada vida é um mistério até que cada um de nós o resolva, e é aonde todos vamos, saibamos ou não”, escreve.