A “primavera do documentário”, como Carlos Alberto Mattos define o boom do gênero no Brasil e no mundo, coincide com o momento em que o crítico de cinema passa a se debruçar sobre esse tipo de filme, a partir dos anos 2000. Foi assim que, abrindo espaço em jornais, programas de TV e sites, ele se tornou um dos grandes especialistas do tema no país.
 
Falar de um gênero em específico pode parecer pouco, principalmente diante da quantidade de ficções que assaltam as salas, mas Carlos Alberto mostra no livro “Cinema de Fato – Anotações Sobre Documentário”, lançado pela editora Jaguatirica, que não só há muitos filmes para se comentar como uma grande diversidade no documentário.
 
O que é possível perceber já na divisão de capítulos – sete, de acordo com classificações como “observar o mundo”, “conversar com o mundo”, “eu e o mundo”, “inventar o mundo”, “vida e morte” (para grandes questões humanas), “documentário e história” e “diálogo nas fronteiras”, que enfoca trabalhos que recorrem a elementos ficcionais.
 
Para além dos filmes
“Quando fui selecionar o que iria para o livro, busquei os textos de maior fôlego, abordando questões sobre o documentário que ultrapassassem o filme em específico. As resenhas são importantes, mas são circunscritas ao filme. Reuni as análises para que partissem para um pensamento mais amplo, seja sobre a ética, a estética ou a narrativa”, explica o autor carioca.
 
Por essa ótica, surgem ensaios preciosos sobre realizadores internacionais como Krzysztof Kieslowski, polonês que mais tarde abandonaria o gênero para abraçar a ficção (“Para ele, era impossível filmar de fato a intimidade das coisas”, assinala o crítico), Pier Paolo Pasolini, Wim Wenders e Jia-Zhang-ke. O Brasil comparece em bom número, entre eles cineastas de Minas Gerais.
 
“O gênero conquistou um lugar, com as salas de cinema passando a ter interesse em exibi-lo”
Carlos Alberto Mattos
 
Sobre Marcos Pimentel, diretor de “Sanã” e “O Sopro”, o autor destaca o trabalho com as formas e o som. A partir de “O Céu Sobre os Ombros”, de Sérgio Borges, ele levanta a questão do cinema “hermafrodizado”, palavra usada por ele para definir um filme híbrido, com os pés bem firmes no documentário e na ficção. 
 
Outros nomes mineiros, como Marília Rocha, Cao Guimarães e Kiko Goifman, não ganharam artigos específicos, mas são citados. Cao é inserido na temática sobre a fronteira entre documentário e videoarte. Já Marília vem à tona quando Carlos discute a presença do som, “quando os ruídos tomam o mesmo lugar da palavra”.
 
“Cinema de Fato – Anotações Sobre Documentário” – Compra pelos sites da editora Jaguatirica (editorajaguatirica.com.br) e da livraria Travessa (travessa.com. br). Preço: R$ 59,90.