A verdadeira história da ficção científica “Perdido em Marte” não é a do astronauta que foi deixado para trás em um lugar tão longínquo quanto o planeta vermelho e dos muitos esforços feitos pela Nasa para trazê-lo são e salvo para casa.


Já disponível para streaming, no Telecine Play, o filme é uma peça de autoajuda, ao ressaltar o permanente autocontrole e a segurança do cientista abandonado, que vira uma espécie de MacGyver (da série homônima dos anos 1980) espacial.

Desde o momento em que acorda em Marte, após uma violenta tempestade, quando é dado por morto pelos companheiros de viagem, Mark (Matt Damon) não perde a razão. Ao contrário, com o auxílio de uma câmera, sua nova parceira, ele é só humor.

Mark seria o contraponto a personagens marcantes como o Bowman de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968) ou o Kelvin de “Solaris” (1972), em que o isolamento no espaço os leva à loucura. Por isso é interessante observar o que faz de Mark tão sereno.

 

O futuro de “Perdido em Marte” é muito diferente do que é visto em “Blade Runner”, outro filme do diretor Ridley Scott: é otimista e acredita nas boas intenções das pessoas. No filme de 1982, a Terra está cada vez mais dividida, como uma grande Torre de Babel



Big Brother

A trama não percorre aspectos religiosos como em “2001”. E também não exibe, em nenhum momento, algum tipo de fantasma como o que Kelvin carrega para a sua missão. Aparentemente não se prende à família. E não culpa ninguém por ter ficado lá.


Ao contrário, Mark se preocupa com seus colegas, em como receberão a notícia de que está vivo. Seu primeiro contato com eles, quando ainda estão retornando à Terra, é pontuado pelo humor, brincando com a seleção musical da comandante.

Apesar de não gostar, ele não dispensa a música disco na base marciana. E tem na câmera, desde os primeiros instantes, uma confidente no estilo youtuber, fazendo questão de registrar cada passo seu, dialogando assim como uma característica cultural atual.

O que vemos é uma necessidade de preencher todos os vazios, com a música ou com as imagens. Essa sensação é aumentada quando ele estabelece contato com a Nasa, que passa a receber o detalhamento de tudo que realiza no pequeno espaço.

Ele seria como um “morador” do Big Brother. Como nesses programas, a premissa é invertida: vence quem se despersonaliza, quem melhor se adapta ao ambiente. Este não é adaptável ao participante. É ele quem deve modelar-se ao que está à volta.

Em “Perdido em Marte”, o que vemos é exatamente isso: a sobrevivência do astronauta interessa a quem o vê (ou verá), como num jogo, com o humor acentuando mais a falta de personalidade, um artifício que sintetiza as próprias opções do filme.

Leia mais:

'Perdido em Marte' é a ficção científica mais divertida do ano