Estão ali os tradicionais corredores, as vovós paparicando seus netinhos e noivas posando para fotógrafos, como de costume. Mas desde o dia 12, a Praça da Liberdade tem ganhado perfis bem mais diferentes entre seus frequentadores. Durante a Copa do Mundo, o espaço se tornou uma pequena Babel belo-horizontina, um passeio obrigatório para os milhares de turistas que a capital mineira vem recebendo.

Basta andar um pouquinho para ouvir as mais diferentes línguas – em especial, o inglês e o espanhol. Mas também há espaço para o malaio, idioma da auditora Cheryl Wong e o empresário Paul Zheng, jovens de 27 anos de Cingapura.

O casal não é fanático por futebol, mas veio ao Brasil para conferir o clima de Copa do Mundo. Assistiram a um jogo no Mineirão e tiraram quatro dias de sua viagem para passear por Belo Horizonte. Na Pampulha, gostaram da igrejinha de São Francisco e estranharam a Casa do Baile – acharam curioso o fato de um espaço tão pequeno ter sido criado para festas.

Passearam pelo Shopping Cidade, pela Savassi e estavam dispostos a usufruir dos espaços do Circuito Cultural Praça da Liberdade. Tudo lindo para eles, mas houve uma ressalva. “Conhecemos o Memorial Minas Vale, mas todas as instruções estão escritas em português. Vimos as imagens, mas não compreendemos o contexto”, diz a turista, que viu duas mostras sobre futebol no espaço.

Inglês radicado em Recife há nove meses, o professor Pat Bushell, 44, quis aproveitar a única manhã livre em Belo Horizonte para conhecer o máximo possível. Depois de encher a mochila com queijos do Mercado Central, seguiu para os museus da Praça da Liberdade. Começou o passeio pelo CCBB e esperava conseguir ver ainda a exposição “Brasil Indígena”, no Centro de Arte Popular Cemig. “Escolhi as opções que pareceram mais interessantes no Centro de Informação ao Visitante. Gostei muito do prédio do CCBB, porque nós europeus sempre ficamos interessados por arquitetura antiga. Gostei do piso, das escadas, do teto. É tudo lindo”, diz.

Arquitetura é mote para passeio

O turista que chegar à Praça da Liberdade poderá encontrar informações oficiais sobre o belo cartão-postal no Centro de Informação ao Visitante. Mas quem quiser saber um pouco mais pode recorrer a um auxílio informal e criativo. Quatro amigas do universo do design e da arquitetura criaram o projeto “BH Walking Tours”, que consiste em um rápido passeio guiado pela praça, com informações sobre a arquitetura dos belos edifícios públicos e a história do desenvolvimento urbano de Belo Horizonte.

Em panfletos espalhados pelos albergues da cidade, as garotas oferecem passeios às segundas, quartas e sextas para turistas. O pagamento não é estipulado. Cada um paga o quanto quiser. Em média, elas conseguem faturar R$ 50 por grupo.
“Todas nós já moramos fora e vimos nessa ideia uma oportunidade de praticarmos os outros idiomas. Oferecemos o passeio em espanhol, inglês, francês e alemão”, conta Iwana Raydan, de 20 anos.


Na manhã dessa quarta-feira (25), ela e sua parceira Viviane Okubo passearam com um grupo de venezuelanos. Um deles era o engenheiro Alejandro Benitez, que participava do “BH Walking Tours” pela segunda vez. “Gostei muito do passeio porque as meninas são muito cultas e bastante preparadas”, afirma o rapaz.

Hospedado na casa de uma jovem belo-horizontina, Alejandro está vivendo uma verdadeira aventura pela capital mineira. Visitou bares de diferentes regiões da cidade, foi a um churrasco na casa de uma família em Contagem, viu o entardecer na lagoa da Pampulha e conseguiu conhecer o fechado escritório da Google, localizado na capital. “Vim sozinho e sem muito dinheiro e estou me divertindo muito. Espero conseguir prolongar a minha estadia na cidade”.

Austrália

A Austrália não jogou em Belo Horizonte, mas dois irmãos daquele país fizeram questão de vir à cidade para assistir ao jogo da Inglaterra e fazer turismo. O tenista Niro Yoganathan, 29, e o eletricista Piro Yoganathan, 31, assistiram aos shows musicais do “Festival Savassi Cultural” e passearam por museus. No CCBB, aproveitaram para ver a mostra “Olhares Múltiplos”. “A praça é muito linda e a fachada é muito especial”, diz Niro. “É tudo muito diferente do já vimos”, completa Piro.

Mas os visitantes não se restringem aos estrangeiros. Quatro estudantes da Escola Estadual Professor Morais aproveitaram as férias para fazer um trabalho interdisciplinar sobre a Ditadura. Anotavam atentamente todos os detalhes da mostra “Resistir É Preciso”, no CCBB. “Está sendo interessante, vimos estrangeiros em todos os corredores”, observa Bruna Pereira, de 17 anos.

Recorde de público batido anteontem

Ainda não há dados consolidados sobre a visitação no Circuito durante a Copa, mas sabe-se que o aumento de visitantes cresceu exponencialmente. No CCBB, por exemplo, o recorde de público foi batido na última terça-feira, com 4.685 visitantes em um único dia. A média de pessoas que entraram no edifício em junho é de 2.306 indivíduos por dia. Em maio, a média foi de 962.